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Vol. 1 nº 1 - Jan. / Abr.  de 2011

Introdução à Metodologia Científica

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Páginas 9 a 11

Como ler e escrever artigos científicos

How to read and write scientific articles

Autores: Marilene Crispino Santos1; Marcia Alves Galvão2

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Desde os primeiros anos de graduação em Medicina, entramos em contato com artigos científicos. Frequentemente interpretamos esses textos de forma intuitiva, por não sabermos com clareza quais seus objetivos e o porquê de suas características peculiares. Como consequência, a aplicação adequada dos conhecimentos e a discussão das idéias propostas na literatura ficam comprometidas. Uma avaliação consciente dos textos é uma condição essencial para sua perfeita compreensão. A condução e a divulgação de novos estudos desenvolvidos em nosso meio e a apresentação do pensamento científico, fundamentais para a resposta as nossas próprias necessidades, também ficam prejudicadas pela falta de uma base teórica adequada para a leitura dos trabalhos.

Esta seção da Residência Pediátrica tem como objetivo contribuir para a formação de especialistas em pediatria que sejam capazes de assumir a responsabilidade por sua atualização permanente, de acompanhar o desenvolvimento científico e de gerar e divulgar novos conhecimentos.

Quando buscamos o significado da expressão “artigo científico”, destacamos a definição da ABNT de 2010. Trata-se de uma apresentação sintética dos resultados de investigações ou de estudos a respeito de uma questão. Tem, como objetivo principal, divulgar o assunto investigado, o referencial teórico utilizado, a metodologia empregada e os resultados alcançados. Consiste, ainda, em tornar público os resultados do trabalho de pesquisa, não só como garantia da autoria, mas também como forma de manifestar atitudes e compreensão do estudo realizado sobre determinado tema.

Tradicionalmente, um artigo científico deve apresentar as seguintes seções: Introdução, métodos, resultados com tabelas e figuras, discussão e referências bibliográficas (Figura 1).


Figura 1 - Composição de um artigo científico (manuscrito) a ser enviado para publicação.



Tal modelo, contudo, pode variar, dependendo do objetivo do estudo a ser desenvolvido. É de grande utilidade rever todas as seções que compõem um manuscrito, de forma a assegurar que nenhuma foi esquecida na apresentação final do trabalho.

O eixo principal de um artigo científico é a conexão entre três elementos vitais: a hipótese ou a pesquisa em si, o desenho de estudo e a análise. Uma determinada hipótese só poderá ser desenvolvida por meio de um específico desenho de estudo, e consequentemente, por uma análise e apresentação apropriadas dos dados. A razão mais frequente da não aceitação de artigos científicos para publicação é a discrepância observada entre esses três elementos mencionados.

Vamos então, agora, apresentar cada uma das seções de um manuscrito, lembrando a importância de se seguir rigorosamente as normas de publicação do periódico escolhido – tanto em relação ao conteúdo quanto à forma de apresentação (layout).

1) Folha de rosto (Title Page): comece com esta seção e em 15 minutos você terá escrito uma das partes mais importante do trabalho. Aqui é necessário incluir:

a) Título da pesquisa, autores, instituição e/ou afiliação, endereço para correspondência, patrocínios e patrocinadores, número de registro do ensaio clínico controlado, palavras-chaves e data

b) O título é essencial, pois é a apresentação do trabalho para a comunidade científica. Deverá representar a pesquisa e ao mesmo tempo ser capaz de despertar interesse nos leitores


2) Introdução (Introduction): é onde devemos explicitar as razões e os fundamentos do estudo. É o segmento mais importante para convencer o leitor de que o que você realizou faz sentido. Em geral, a “Introdução” não deve exceder duas páginas escritas com espaçamento duplo. Devemos ter em mente que o foco aqui é o de manter o leitor com expectativas crescentes em relação ao trabalho.

3) Métodos (Methods): independentemente de se tratar de um estudo clínico, epidemiológico ou de ciência básica, a metodologia deve ter uma estrutura semelhante. Usualmente, inicia-se com a amostra (material), seguida do desenho de estudo e posteriormente da descrição de como se fará a mensuração e a análise dos dados. Outra opção é iniciarmos pelo desenho de estudo.

a) Material: inclui os pacientes, animais, tecidos e outros. Deve-se apresentar a estimativa do tamanho amostral e indicar o número de indivíduos selecionados, mencionando por quem, de que modo e de onde os participantes vieram. É importante fornecer detalhes do recrutamento. Critérios de inclusão e exclusão devem estar explicitados. Torna-se essencial apontar as perdas ocorridas, cujos critérios devem estar bem definidos. A aprovação pela Comissão de Ética em Pesquisa é mandatória para se iniciar qualquer trabalho, juntamente com o consentimento informado por escrito quando se tratar de seres humanos.

b) Desenho: para estudos clínicos o número do registro deve ser encaminhado ao Registro Internacional de Ensaios Clínicos (International Clinical Trials Registry Platform; WWW.Who.int/ictrp/about/details/en/índex/HTML). O tipo de desenho deve estar bem definido (descritivo, observacional, transversal, seguimento, retrospectivo, prospectivo, ensaio clínico randomizado e controlado, estudo de coorte e de caso-controle ou outros). Discriminar se o estudo é: controlado ou não, controlado por placebo, pareado, paralelo se há cross-over. Se é um estudo aberto, unicego (qual o elemento cego?) ou duplo cego. Explique o método de randomização ou de pareamento. Mencionar exatamente o que foi conduzido, quando, como, com que frequência e em que sequência. É preciso considerar o que foi feito antes do início da pesquisa (triagem, run-in?) e ao seu final (run out?). Os conceitos de cada um dos itens mencionados serão objeto de discussão em publicações futuras.

c) Mensuração: apresente os fundamentos das medidas que serão utilizadas para cada uma das variáveis, considerando-se os objetivos do estudo. Informe sobre a validação do método (acurácia, precisão, etc)

d) Análise: certifique-se de utilizar análise e estatística adequadas ao estudo em questão. Mencione a estrutura do banco de dados e quem foi o responsável por ele. Indique quem realizou os procedimentos estatísticos com qual software e respectiva versão. Explique claramente a análise conduzida inter e intra-grupo. Defina o tamanho mínimo do efeito (por exemplo: a mínima diferença clínica de importância) e o erro tipo I e II. Apresente a estimativa amostral ou o poder do estudo. Esclareça se a análise foi por “intenção de tratar” ou se “por protocolo” e qual o tratamento dado às perdas e aos dados não obtidos.


4) Resultados (Results): lembre-se que a seção de resultados deve apresentar fatos e, por isso, não discuta os achados neste espaço. Apresente os resultados em parágrafos claros, baseados na mesma sequência da seção de “análise”. Para facilitar, uma boa opção é iniciar com a construção de tabelas e figuras. Se esses elementos expressarem os principais achados, então a apresentação dos resultados por escrito ficará mais fácil. Comece comentando se o tamanho amostral estimado foi de fato obtido. Apresente uma análise inicial de sua amostra por meio de tabela (geralmente a primeira) com informações vitais (demográficas e clínicas). Mencione no texto as características que merecem destaque. Concentre-se primeiro nos desfechos primários e só então passe aos secundários. Evite repetição de dados no texto, tabelas ou nas figuras. Seja conservador ao apresentar a análise por subgrupos e, para isso, siga os protocolos atuais vigentes. Pode-se finalizar com achados inesperados e inicialmente não planejados (análise post-hoc). No entanto, estes deverão estar limitados ao mínimo possível.

5) Discussão (Discussion): há muitas maneiras de se escrever esta seção. Esta é considerada, por muitos, a parte mais difícil do trabalho porque há muitos itens a abordar. De maneira geral, deve-se reservar cerca de três laudas, utilizando-se espaçamento duplo (não exceder quatro páginas). Novamente, aqui é essencial ser conciso e separar o pensamento da escrita. Para isso, o primeiro passo é distinguir os parágrafos que compõem a discussão e que deverão incluir:

a) Mensagem principal (em duas ou três linhas). Mostre o que se pode inferir e apresente as implicações de seus resultados

b) Comparação com a literatura disponível: mostre o que é novo em seus achados e se eles confirmam as informações já disponíveis. Sempre inicie pelos seus resultados e posteriormente os compare com a literatura. Discuta somente as observações e não os mecanismos envolvidos ou interpretações dos achados

c) Pontos fortes e fracos: inicie, sem exageros, por dois ou três pontos fortes do trabalho. Provavelmente há escolhas no método empregado que introduziram inconsistências. Mencione esses pontos, caso contrário o revisor o fará.

d) Interpretações e mecanismos: nessa parte devemos perguntar: Como explicar os achados? Quais os mecanismos fisiopatológicos, imunológicos, etc, que provavelmente formaram a base do trabalho? Direcione esses mecanismos um a um. Pode-se separar esse item em dois ou até mesmo três parágrafos. Deve-se finalizá-lo mostrando que os potenciais erros envolvidos não foram graves a ponto de explicarem os resultados (negativos). Se houver questões não esclarecidas, mencione-as.

e) Relevância clínica: o estudo contribuiu para melhorar a detecção, diagnóstico, monitoramento ou tratamento da doença? O que ainda falta nesta área?

f) Conclusão: este segmento pode ser bem resumido pelo fato de a principal mensagem já ter sido colocada no primeiro parágrafo. Seja conciso e claro, sumarizando os principais achados em uma ou duas sentenças, e, o mais importante, forneça as implicações dos seus resultados em relação ao problema de saúde (em termos gerais e específicos). Enfatize quais as perspectivas.


6) Resumo (Abstract): a estrutura do resumo segue um formato similar ao do manuscrito, geralmente com quatro parágrafos: fundamentos, métodos, resultados e conclusão:

a) Os fundamentos se referem à relevância do problema central, relatados em apenas uma ou duas linhas. Deve-e apresentar a hipótese e a pergunta principal da pesquisa.

b) A seção de métodos é um pouco maior. Discriminar as características essenciais dos participantes, o tipo de desenho e os parâmetros do desfecho primário. É suficiente uma frase para explicar a análise

c) Os resultados deverão descrever o desfecho primário que está relacionado à hipótese ou a pergunta do estudo. Selecione um ou dois resultados quantitativos com os respectivos intervalos de confiança ou p valor

d) A conclusão essencialmente engloba dois aspectos. O primeiro - apresentado em uma ou duas frases – relaciona-se aos principais achados e o segundo - com apenas uma sentença - aborda as implicações da pesquisa, que deverá ter relevância em relação ao problema-chave como já descrito nos fundamentos.


Em caso do manuscrito ser rejeitado, não entre em pânico. Os períodos fazem uma seleção muito mais positiva do que negativa. A menos que os revisores tenham convencido você de que seu trabalho apresenta falhas incontornáveis, considere submetê-lo a outro periódico. Aproveite as sugestões feitas por eles (se concordar com elas) e aperfeiçoe a pesquisa, o que pode exigir novos experimentos.

No caso do manuscrito ser aceito, festeje juntamente com os co-autores!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Sterk PJ, Rabe KF. The joy of writing a paper. Breathe. 2008;4(3):224-32.

2. International Clinical Trials Registry Platform. Disponível em HTTP://WWW.Who.int/ ictrp/about/details/en/índex/HTML. Acesso em janeiro de 2011

3. ABNT. Artigo Científico – Orientações básicas ABNT. Disponível em HTTP://www.assevim.edu.br/. Acesso em janeiro de 2011.










1. Pediatra. Doutora em Medicina (Pesquisa Clínica) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Secretária Geral da SBP.
2. Pediatra. Doutora em Medicina (Saúde da Criança e do Adolescente) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 2ª Secretária da SBP.
 
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