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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Piomiosite bacteriana em pediatria: relato de caso

Bacterial pyomiositis in pediatrics: case report

Gabriela Zucatto Oliver1; Lidia Alice Gomes Monteiro Marin Torres1; Gabriela Cristina Santos de Souza1; Fernanda Cunha Castro1; Jussélen Evarista Rosa de Paula1

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n2-947 Residência Pediátrica, 14(2), 1-3

RESUMO

INTRODUÇÃO: A piomiosite bacteriana (PB) é uma doença infecciosa rara que acomete o sistema musculoesquelético e é causada mais frequentemente pelo S. aureus. Afeta um ou vários grupos musculares e é importante o diagnóstico precoce, pois podem ocorrer quadros infecciosos graves, incluindo sepse e sequelas incapacitantes a longo prazo e até perda do membro.
OBJETIVO: Descrever um relato de caso de um paciente com piomiosite com diagnóstico precoce e boa evolução.
RELATO DE CASO: Paciente de 10 anos com dor intensa em membros inferiores e cintura pélvica e claudicação há 1 dia, tendo aparecido após andar de bicicleta por longo período. Negava febre ou sintomas gerais. Os exames laboratoriais mostraram processo inflamatório em curso e a hemocultura foi negativa. RX e USG do quadril e coxa esquerda mostraram-se normais, mas a RNM do quadril mostrou sinais sugestivos de piomiosite bacteriana. Iniciados antibióticos endovenosos, com melhora rápida. Teve alta após 21 dias de antibioticoterapia sem sequelas.
CONCLUSÃO: A história clínica cuidadosa levou à suspeição da doença e a ressonância nuclear magnética confirmou o diagnóstico e permitiu a instituição precoce do tratamento, tendo o paciente evoluído sem qualquer sequela.

Palavras-chave: Piomiosite, Infecções estafilocócicas, Doenças musculares, Doenças musculoesqueléticas.

Abstract

INTRODUCTION: The bacterial pyomyositis (BP) is a rare infectious disease that affects the skeletal muscle system and it is most often caused by S aureus. It affects one or several muscle groups and an early diagnosis is important, otherwise it may cause serious infectious conditions, including sepsis and long-term disabling sequelae and even limb loss.
PURPOSE: To describe a case report of a patient with pyomyositis early diagnosed and good evolution.
REPORT: 10-year-old patient with severe pain in the lower limbs and in the pelvic girdle and claudication for one day, that started after riding a bicycle for a long period of time. Patient denied fever or general symptoms. Laboratory tests showed an ongoing inflammatory process and blood culture was negative. X-ray and ultrasound of the hip and left thigh were normal, but MRI of the hip showed signs suggestive of bacterial pyomyositis. Intravenous antibiotics were started with fast improvement. Patient was discharged after 21 days of antibiotic therapy, without sequelae.
CONCLUSION: The careful clinical history and the magnetic nuclear resonance confirmed the diagnosis of the disease and allowed early institution of the treatment, evolving with no sequelae.

Keywords: Pyomyositis, Staphylococcal Infections, Muscular Diseases, Musculoskeletal Diseases.

INTRODUÇÃO

A piomiosite bacteriana (PB) é uma doença rara, infecciosa, que acomete o sistema musculoesquelético, podendo ser unifocal ou afetar vários grupos musculares. O agente etiológico mais frequente é o Staphyloccocus aureus, predominando no sexo masculino, entre a primeira e a segunda décadas de vida1-4. Descrita inicialmente por Scriba em 1885 em regiões tropicais, ficou conhecida também como piomiosite tropical, mas tem sido descrita também em países de clima temperado3-5.

A fisiopatologia provável seria uma bacteremia desencadeada por trauma ou esforço físico com contusão muscular, que pode reduzir a resistência natural da musculatura à infecção. Alguns pacientes adultos que adquirem a doença apresentam alguma predisposição ou imunossupressão, mas, entre as crianças, não é frequente a ocorrência de imunossupressão3,6.

Na fase inicial, há sintomas gerais, dor não localizada e apenas 2% dos pacientes são diagnosticados nesse período. A fase seguinte é a supurativa e a dor se torna intensa e localizada, com acúmulo de secreção purulenta intramuscular. Por fim, se o diagnóstico ocorre na fase tardia, podem ocorrer septicemia e outras complicações graves como pneumonia, empiema, osteomielite, choque séptico, tóxico ou compartimental, insuficiência renal e trombose venosa4,6,7. A mortalidade varia de 0,5 a 2%, e os pacientes não tratados podem evoluir com amputação de membro, osteoartrose e alteração da marcha1,2.

O exame de imagem de escolha para o diagnóstico é a Ressonância Nuclear Magnética (RNM) e sua realização não deve ser postergada, pois desde o início detecta inflamação difusa da musculatura e delimita a extensão e grau de comprometimento6,8. Outros exames, laboratoriais ou de imagem, devem ser utilizados para afastar outras causas infecciosas, não sendo úteis para o diagnóstico precoce da doença1-3,6. O objetivo do presente relato é demonstrar a importância da história clínica e da realização precoce da RNM, evitando complicações e sequelas em uma doença rara em crianças. Ainda, objetiva divulgar a doença e alertar profissionais de saúde sobre a possibilidade desse diagnóstico e demonstrar como a intervenção precoce previne a ocorrência de uma evolução desastrosa e incapacitante.


RELATO DE CASO

Foi obtido consentimento livre e esclarecido da mãe e termo de assentimento do paciente, tendo sido o presente relato aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa sob Parecer no 51973221.2.0000.5378.

Masculino, 10 anos, hígido, foi internado devido à dor intensa em membro inferior esquerdo e cintura pélvica ipsilateral e claudicação há 1 dia. A dor irradiava para a fossa ilíaca esquerda, tendo aparecido após andar de bicicleta por longo período, tendo sido diagnosticado inicialmente como lesão traumática. Negava febre ou sintomas gerais, mas, durante a internação, a dor progrediu e a criança não conseguia andar. Ao exame, confirmaram-se os sintomas acima, além de dor intensa à rotação externa do quadril à esquerda. Os exames laboratoriais mostraram processo inflamatório em curso: PCR: 102 MG/DL, VHS: 61 mm, com hemograma e CPK normais e a hemocultura foi negativa. RX e USG do quadril e coxa esquerda mostraram-se normais, mas a dor persistia intensa e incapacitante. Foi solicitada, então, RNM do quadril que mostrou músculos adutores de dimensões aumentadas e apresentando alto sinal heterogêneo, edema difuso entre suas fibras, pequena coleção intramuscular com atenuação de sinal em T2, mas com realce periférico, confirmando o diagnóstico de piomiosite bacteriana, com pequeno abscesso à esquerda (Figura 1 e Figura 2). Iniciados clindamicina e ceftriaxona endovenosos, com rápida redução da limitação física e resolução dos sintomas no 5º dia de tratamento. Também apresentou queda progressiva dos valores de PCR e VHS. Teve alta após 21 dias de antibioticoterapia sem alterações clínicas ou laboratoriais.

Figuras 1 e 2. Músculos adutores curto e longo à esquerda, de dimensões aumentadas, com edema difuso entre suas fibras, com pequena coleção com alto sinal em T2 e baixo sinal em T1, com realce periférico e pequena coleção visíveis após injeção de contraste e edema na musculatura adutora contralateral.
DISCUSSÃO

A faixa etária de maior ocorrência da PB tropical é bastante variável de acordo com os diversos estudos, mas os relatos mais recentes descrevem uma maior prevalência na primeira e segunda décadas de vida. A doença predomina no sexo masculino e, em até metade dos casos, está associada a trauma, exercício físico intenso, alterações nutricionais ou imunológicas3,4,6. O paciente relatado apresentava quadro clínico típico e relato de exercício físico intenso, como provável desencadeante do processo. Os grupos musculares mais acometidos são os quadríceps, psoas, glúteos e adutores, como no caso descrito, mas pode ocorrer no tórax, gastrocnêmio, solear, paravertebrais e músculos do antebraço4.

O agente mais frequente é o S. aureus, seguido pelo Streptoccocus sp. e bacilos Gram-negativos. A hemocultura é negativa, na maioria dos pacientes, como ocorreu neste caso6. Suas manifestações clínicas variam conforme a localização e fase da doença, sendo que a febre e a dor são os mais importantes. Nesse caso, a febre pode não ter ocorrido devido ao uso precoce de anti-inflamatório prescrito para a dorintensa e pela introdução precoce do tratamento. É tão intenso e incapacitante o quadro que deve ser feito o diagnóstico diferencial com osteomielite, artrite séptica e sinovite, mas também com hematoma e contusão muscular2,3. O paciente relatado apresentava dor e limitação intensa à movimentação, com piora progressiva, tendo sido diagnosticado, inicialmente, como lesão traumática, o que é relatado na literatura como importante diagnóstico a ser excluído. Entretanto, quando o paciente não melhora, a RNM não deve ser postergada, pois diagnostica, de forma inequívoca e rápida, a inflamação muscular difusa. Também delimita a extensão e grau de comprometimento6,8. Em contrapartida, o RX é habitualmente normal na fase aguda, tendo pouco valor diagnóstico. A PCR e VHS costumam estar aumentados e CPK dentro da normalidade, como ocorreu com o caso em questão6. A USG e TC podem identificar coleções, auxiliando nas punções e colocação de drenos, mas a RNM é mais específica, sendo o exame mais adequado para definir infecções de tecidos moles, após ausência de alterações em radiografias e exames gerais4,6,9. Como observado, o paciente relatado apresentou apenas atividade de provas inflamatórias e o único exame de imagem alterado foi a RNM.

A antibioticoterapia deve ser iniciada por via endovenosa contra S. Aureus e mantida até melhora clínica, podendo ser modificada de acordo com a cultura, mas deve prolongar-se por duas a seis semanas. Os casos diagnosticados na segunda e terceira fase necessitam ainda de drenagem dos abscessos e desbridamento cirúrgico1,6. Conforme descrito na literatura, há grande risco de complicações como choque séptico, pneumonia com empiema, insuficiência renal, osteomielite e até ressecção do membro, quando o diagnóstico é realizado na fase mais avançada da doença3,7. No caso relatado, foram utilizados os antibióticos ceftriaxona e clindamicina, com boa resposta clínica e laboratorial. Devido ao diagnóstico e tratamento precoces e abscesso de pequeno volume, não houve necessidade de drenagem, e o paciente evoluiu com ótima resposta clínica e sem qualquer sequela, o que poderia ter sido diferente, caso fosse retardado o diagnóstico.

Sendo assim, considerando a inespecificidade dos sintomas, exames laboratoriais e de imagem, ressalta-se a importância de uma história clínica minuciosa nos casos de dores musculares, não associadas a traumatismos, informações essas que levaram à suspeição de PB. Ainda, considera-se importante a realização da RNM assim que suspeitado do quadro, já que é fundamental para o diagnóstico precoce, garantindo uma evolução sem complicações, redução da morbimortalidade e do tempo de hospitalização.


REFERÊNCIAS

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Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, Pediatria - Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil

Endereço para correspondência:

Gabriela Cristina Santos de Souza
Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto
Avenida Saudade, nº 456, Campos Elíseos
Ribeirão Preto - SP, Brasil
E-mail: gabrielacssouza104@gmail.com

Data de Submissão: 04/09/2022
Data de Aprovação: 23/05/2023

Recebido em: 04/09/2022

Aceito em: 23/05/2023

Sobre os autores

1 Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, Pediatria - Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil.

Endereço para correspondência:

Gabriela Cristina Santos de Souza

Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto Avenida Saudade, nº 456, Campos Elíseos Ribeirão Preto - SP, Brasil

E-mail: gabrielacssouza104@gmail.com

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Como citar este artigo:

Oliver, GZ, Torres, LAGMM, Souza, GCS, Castro, FC, Paula, JER. Piomiosite bacteriana em pediatria: relato de caso. Resid Pediatr. 14(2):1-3. DOI: 10.25060/residpediatr-2024.v14n2-947

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