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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Hérnia Diafragmática Congênita - Necessário sempre estar atento

Congenital Diaphragmatic Hernia - always need to be vigilant

Danielle de Lima Pimentel1; Gabriel Vieira Kac1; Jordanna de Paula Felipe Mendes1; Lucas Monteiro Leite1; Rhuanna Laurent Silva Ribeiro1; Rinaldo Fábio Souza Tavares2,3

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n2-1248 Residência Pediátrica, 15(2), 1-4

RESUMO

OBJETIVO: Alertar aos residentes de pediatria\neonatologia sobre a importância da suspeita diagnóstica de hérnia diafragmática congênita (HDC) em recém-nascidos com desconforto respiratório, mesmo que não sintomáticos imediatamente ao nascimento.
RELATO DE CASO: Relatamos aqui o caso de um recém-nascido com HDC que apresentou desconforto respiratório e cianose com 6 horas de vida. Estava em alojamento conjunto com a mãe e eupneico até então. Havia recebido ventilação com pressão positiva em sala de parto.
CONCLUSÃO: A ultrassonografia obstétrica morfológica é fundamental para diagnóstico precoce e planejamento do manejo clínico dos casos de HDC desde os primeiros cuidados na sala de parto.

Palavras-chave: Neonatologia, Relatos de casos, Perinatologia, Hérnias diafragmáticas congênitas.

Abstract

We report here the case of a newborn with congenital diaphragmatic hernia (HDC) who presented respiratory distress and cyanosis at 6 hours of age. He was in rooming-in with his mother and had no respiratory distress until then. She had received positive pressure ventilation in the delivery room. The objective of this study is to alert pediatrics/neonatology residents about the importance of diagnostic suspicion of CDH in newborns with respiratory distress, even if they are not immediately symptomatic at birth. The variety of clinical presentations of CDH reflects the volume of contents present inside the chest, compromising lung expansion and the degree of pulmonary hypoplasia induced by this content. The worsening of respiratory dynamics occurs with gas distension of the intrathoracic loops, and is common in cases where positive pressure ventilation were applied at the upper airways, as in the present case. Morphological obstetric ultrasonography is essential for early diagnosis and planning of the clinical management of CDH cases from the very first care in the delivery room.

Keywords: Neonatology, Case Reports, Perinatology, Hernia, Diaphragmatic.

INTRODUÇÃO

A hérnia diafragmática congênita (HDC) configura-se como uma malformação embrionária de natureza usualmente grave que demanda hospitalização em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal e intervenção cirúrgica. Nos casos de HDC ocorrem falhas no desenvolvimento das estruturas ou na fusão entre elas, formando um orifício comunicante e persistente que acarreta a protrusão do conteúdo abdominal para a cavidade torácica1,2.

A HDC pode se apresentar de diferentes formas: A primeira e mais comum é a hérnia de Bochdalek, correspondendo de 70% a 75% dos casos de HDC, e a fissura se apresentando na porção posterolateral do diafragma3. A segunda mais prevalente é a hérnia de Morganni, presente em 20% a 25% das HDC, em que a fissura se apresenta na porção anteromedial do diafragma3. Na hérnia de Bochdalek, a mais comumente encontrada, tem-se uma apresentação mais típica com dificuldade respiratória logo nas primeiras horas após o nascimento4.

Após o nascimento, a respiração espontânea, e principalmente a aplicação de ventilação com pressão positiva, acaba por promover uma distensão acentuada do estômago e das alças intestinais, resultando em um rápido aumento volumétrico e de pressão que os órgãos herniados aplicam sobre o pulmão. Assim, a HDC também pode ser revelada não só pela diminuição do volume abdominal ao nascer, mas também pelo aumento do esforço respiratório e vômitos5. Nesse contexto, é importante salientar que a sintomatologia precoce da HDC normalmente é manifestada quando essa se localiza do lado esquerdo, uma vez que a obstrução do orifício da hérnia por certos órgãos abdominais, como o fígado, poderia explicar o atraso no aparecimento dos sintomas em hérnias do lado direito4,5.

O abdome pode encontrar-se escavado ao nascimento, devido ao deslocamento das vísceras abdominais para dentro do tórax. Outro achado importante na semiologia é dado pela ausculta torácica, que evidencia ruídos hidroaéreos e a ausência de sons pulmonares no hemitórax afetado. Em pacientes com HDC do lado esquerdo, o coração pode ser deslocado para a direita devido a desvio no mediastino. Nos casos menos graves, a dificuldade respiratória pode não estar presente até algumas horas, dias ou mesmo meses após o nascimento. Em raros casos pode passar despercebida e ser descoberta acidentalmente bem mais tarde, normalmente casos de comunicações menores e\ou “tamponadas” por vísceras maciças como o fígado.

Anomalias associadas são observadas em aproximadamente 50% dos casos de HDC e incluem anomalias cromossômicas, doenças cardíacas congênitas e defeitos do tubo neural.

O diagnóstico da hérnia diafragmática pode e deve ser realizado ainda intraútero por meio da ultrassonografia (USG) no pré-natal. A triagem ultrassonográfica pré-natal pode identificar mais de 80% dos casos de HDC6. Nos casos de HDC do lado direito pode ser mais difícil o diagnóstico ultrassonográfico7.

Nesses casos, a ressonância magnética pode ser solicitada para caracterizar melhor o conteúdo dos tecidos.

No cenário da sala de parto, suspeita-se do diagnóstico, quando diante de desconforto respiratório e abdome escavado. A confirmação normalmente acontece por exame radiográfico de tórax\abdômen. A imagem revela achados variados, como alças intestinais ou bolha gástrica no espaço torácico, desvio contralateral do mediastino, atelectasia devido à compressão dos órgãos herniados e presença de órgãos sólidos.

Em defeitos extensos, destacam-se numerosas alças intestinais pneumáticas, hemitórax distendido e deslocamento contralateral do coração e estruturas mediastinais.

Em geral, crianças nascidas com HDC possuem uma taxa de mortalidade de 37,7%8. Neonatos sindrômicos ou com presença de outras anomalias congênitas apresentam taxas de mortalidade mais alta (40,8% e 45,2%, respectivamente) na primeira semana de vida quando comparados àqueles com HDC isolada (28,6%)8.


CASO CLÍNICO

Recém-nato (RN) do sexo feminino, nascido de parto cesáreo indicado por falha de indução de parto vaginal em primípara jovem de 16 anos – com idade gestacional de 39 semanas e 6 dias, peso de nascimento de 3470 g. Apresentou hipertensão gestacional ao final da gestação. Bolsa amniótica rompida no ato cirúrgico com líquido claro e normodramnia. Gestante com todas as sorologias negativas e pré-natal com 9 consultas em rede privada. Ultrassonografias (USG) obstétricas precoces (primeiro trimestre) sem evidências de malformações. Não possuía USG de segundo e terceiro trimestres, incluindo USG morfológica fetal. A gestante nega tabagismo, uso de álcool ou drogas de abuso durante a gestação. Nega uso de medicamentos outros além dos prescritos (polivitamínicos e suplementação de ferro). RN recebeu escore de Apgar de 6 e 8 (primeiro e quinto minutos) – necessitando de oxigênio (O2) suplementar e fração inspirada de oxigênio (FiO2) de 30% em máscara com pressão positiva contínua (CPAP) em vias aéreas para melhora da cianose. Após melhora da cor e como se mantinha estável, eupneico e sem malformações aparentes, foi encaminhado ao alojamento conjunto.

RN no alojamento conjunto começou a apresentar, com 6 horas de vida, desconforto respiratório e saturação limítrofe (90-94%), sendo admitido na UTI neonatal com aproximadamente 7 horas de vida para investigação.

Colocado em CPAP nasal 5 cm d’água com FiO2 30%.

Solicitado primeiro raio-X (RX) a seguir (Figura 1):




Diante das alterações radiológicas encontradas e piora clínica do RN, foi submetido a intubação traqueal e ventilação mecânica de alta frequência oscilatória (VOAF).

Sofreu cirurgia corretiva no 3º dia de vida e, em pós-operatório, devido à boa evolução clínica, foi colocado em ventilação mecânica convencional – com exame radiológico do pós-operatório a seguir (Figura 2).




Permaneceu em TOT até o 7º dia de vida, quando foi colocada em CPAP nasal FiO2 30% com evolução favorável e ar ambiente com 12 dias de vida.

Alta Hospitalar no 22º dia de vida para acompanhamento ambulatorial.


DISCUSSÃO

Estima-se que a hérnia diafragmática congênita (HDC) ocorra em 1 a cada 2500 a 3000 nascidos vivos9,10. Os recém-natos afetados costumam apresentar quadro clínico dentro do período neonatal, variando desde os primeiros minutos até poucos dias de vida pós-natal. Raramente, podem apresentar sintomatologia mínima ou mesmo serem assintomáticos, sendo descobertas acidentalmente mais tarde durante a infância.

Naqueles com apresentação típica (neonatal) a gravidade do desconforto respiratório depende diretamente do grau de hipoplasia pulmonar e da hipertensão pulmonar induzida por essa. Nesse contexto neonatal a hipóxia e acidose contribuem para manter ou mesmo agravar a hipertensão pulmonar. Em alguns casos esta hipertensão pulmonar é tão grave que pode ser até mesmo incompatível com a vida.

Além do quadro respiratório, outras malformações concomitantes podem se somar e aumentar a morbidade e mortalidade da HDC. Outras malformações associadas são encontradas em aproximadamente 50% dos casos de HDC, entre elas: alterações cromossômicas, cardiopatias congênitas e defeitos do tubo neural2,10,11.

Aproximadamente 10% dos casos de HDC apresentarão também malformações cardíacas9. Os defeitos mais comumente descritos são: defeitos do septo ventricular, coarctação de aorta, ventrículo único, hipoplasia de coração esquerdo e tetralogia de Fallot2,10,11.

A estabilização clínica é fundamental antes da correção cirúrgica. Assim que estabelecida, procede-se o mais precocemente para a correção cirúrgica.

Os cuidados com casos de HDC se iniciam já na sala de parto, e por isso o diagnóstico pré-natal através de exame USG morfológico é fundamental para um manejo ideal destes pacientes. Um neonatologista experiente poderá até mesmo desconfiar da malformação em atendimento em sala de parto de recém-nato com dificuldades de ventilação, abdome escavado e escassez de murmúrio vesiculares na ausculta pulmonar, porém este quadro nem sempre é evidente inicialmente4,12.

No presente caso o exame clínico não sugeria a malformação e não se possuía exame USG morfológico na gestação. Assim sendo, foi ventilado com pressão positiva em face na sala de parto.

Quando se tem previamente o diagnóstico de HDC, evita-se ventilar o RN com pressões positivas acopladas à face como através de dispositivos (“prongas”) e/ou máscaras. Recomenda-se, caso necessário, a intubação traqueal para ventilar e evitar escape de gás para alças intestinais e assim evitar maior compressão de parênquima pulmonar e cardíaco. Também devemos proceder à passagem de sonda gástrica para evitar distensão gasosa estomacal e de alças, podendo-se mesmo colocar uma aspiração contínua leve.

No presente caso a escolha ventilatória inicial por alta frequência oscilatória (VOAF) segue as recomendações vigentes em casos graves de HDC na qual a hipertensão pulmonar e persistência de circulação fetal normalmente estão presentes. Como a evolução do quadro clínico revelou a ausência de hipoplasia e hipertensão pulmonares significativas, este recém-nato foi colocado em ventilação convencional em pós-operatório de correção da HDC.

Estratégias para tratamento de casos graves de HDC com hipertensão pulmonar importante e persistência de circulação fetal não foram necessárias, como: sedação mais profunda e mesmo bloqueio neuromuscular, aminas vasoativas para manter PA média superior a pressão pulmonar, óxido nítrico inalatório como vasodilatador pulmonar, e em alguns casos indicação para oxigenação de membrana extracorpórea (ECMO).

A boa evolução no presente caso se deve à ausência de hipoplasia pulmonar significativa, demonstrada, entre outros fatores, pela expansibilidade pulmonar adequada (volume pulmonar), como pode notar-se nas radiografias de tórax do caso e pela ausência de outras anomalias congênitas concomitantes.


CONCLUSÃO

Hérnia diafragmática é uma malformação congênita que continua a desafiar o melhor manejo clínico em diversas unidades neonatais em todo o mundo. O diagnóstico precoce é sempre desejável, através de exame ultrassonográfico durante pré-natal (USG morfológica), dando a gestante e ao seu feto uma infraestrutura adequada de UTI neonatal e equipe cirúrgica. O grau de morbidade e a mortalidade associadas ao quadro dependem da localização e tamanho da comunicação que pode comprometer o desenvolvimento pulmonar normal fetal.

Existe uma ampla gama de apresentações clínicas possíveis, de um lado quadros graves de hipoplasia pulmonar, hipertensão pulmonar severa e persistência de circulação fetal e potencialmente fatais. Por outro lado, podemos encontrar na literatura quadros assintomáticos que são descobertos acidentalmente em crianças maiores. Entre estes dois extremos temos as apresentações mais típicas como o presente caso, no qual a compressão de alças intestinais presentes no tórax compromete a dinâmica respiratória e causa sintomas no período neonatal imediato, mesmo não tendo ocorrido hipoplasia pulmonar significativa e a evolução, assim, “mais benigna”.

O interessante no presente caso e que motivou a sua publicação é o intervalo assintomático de algumas horas, podendo corresponder ao momento em que a distensão gasosa das alças intestinais ocorreu e comprometeu a dinâmica respiratória. A ventilação com pressão positiva em VAS na sala de parto com certeza contribuiu para a descompensação clínica. Motivo pelo qual o diagnóstico de imagem pré-natal (ausente neste caso) é fundamental para melhor manejo desde a sala de parto.

O diagnóstico diferencial de hérnia diafragmática se impõe em todo recém-nascido com desconforto respiratório, mesmo que não tenha se iniciado imediatamente após o nascimento. O diagnóstico pré-natal ultrassonográfico é de fundamental importância para o manejo correto de ventilação e cuidados já na sala de parto. O diagnóstico precoce (pré-natal) também permite o encaminhamento desta gestante para serviços de mais alta complexidade e preparados para o atendimento multidisciplinar e integral, indispensáveis nestes casos.

REFERÊNCIAS

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12. Bertollo LA, Lemos LD, Louzada LA, Volpini LM, Oliveira EGG, Pinasco GC, et al. Hérnia diafragmática congênita de apresentação tardia: relato de caso. Resid Pediatr. 2022;12(2):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2022.v12n2-308

1. Faculdade de Medicina da UFF, Departamento Materno-infantil - MMI - Neonatologia - Niterói - RJ - Brasil
2. Universidade Federal Fluminense - UFF, Departamento Materno-infantil - MMI - Neonatologia - Niterói - RJ - Brasil
3. Universidade Federal Fluminense - UFF, Faculdade de Medicina - Professor Assistente - Niterói - RJ - Brasil

Correspondence to:

Rinaldo Fábio Souza Tavares
Universidade Federal Fluminense - UFF, Departamento Materno-infantil. Rua Marquês do Paraná, nº 303, 2º andar, Prédio Principal
Niterói, RJ, Brasil. CEP: 24033-900.
E-mail: rinaldotavares@id.uff.br

Data de Submissão: 28/02/2024
Data de Aprovação: 14/06/2024

Sobre os autores

1 Faculdade de Medicina da UFF, Departamento Materno-infantil - MMI - Neonatologia - Niterói - RJ - Brasil.

2 Universidade Federal Fluminense - UFF, Departamento Materno-infantil - MMI - Neonatologia - Niterói - RJ - Brasil.

3 Universidade Federal Fluminense - UFF, Faculdade de Medicina - Professor Assistente - Niterói - RJ - Brasil.

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Como citar este artigo:

Pimentel, DL, Kac, GV, Mendes, JPF, Leite, LM, Ribeiro, RLS, Tavares, RFS. Hérnia Diafragmática Congênita - Necessário sempre estar atento. Resid Pediatr. 15(2):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n2-1248

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