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doi.org/10.25060/residpediatr

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Impacto do abuso de drogas na gestação no desenvolvimento neuropsicomotor

Impact of drug abuse during pregnancy on the neuropsychomotor development

Luana Manias1; Danielly Costa Antunes Batista1; Débora Cristina Margueron do Nascimento1; Luiza Lanzillotti Thuller do Prado1; Maria Elisa Rodrigues Silva1; Alexandre Massashi Hirata1

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1302 Residência Pediátrica, 15(3), 1-5

RESUMO

O desenvolvimento neuropsicomotor envolve a formação da linguagem, da cognição, da motricidade e das habilidades sociais. Esse processo pode ser afetado por diversos fatores como pelo uso de drogas durante a gestação. Este estudo tem como objetivo constatar as alterações no desenvolvimento neuropsicomotor de recém-nascidos filhos de mulheres que fizeram uso de drogas lícitas, como tabaco e álcool, e/ou ilícitas, como maconha, cocaína e crack, durante o período gestacional. Esta revisão de literatura foi realizada por meio da busca de artigos publicados em português, inglês, espanhol e francês nas bases de dados PubMed e Scientific Electronic Library Online (SciELO), publicados e indexados nos últimos 10 anos. Com base nos artigos selecionados, foram divididos para análise quanto às amostragens, categorizando-se em droga exposta ao feto no período gestacional: (1) álcool; (2) tabaco; (3) cocaína e crack; (4) maconha. Foram encontradas alterações complexas no desenvolvimento neuropsicomotor de recém-nascidos, com consequências inclusive a longo prazo, fazendo-se necessário, portanto, um melhor rastreio, monitoramento e acolhimento das gestantes, priorizando a total abstinência dessas substâncias e evitando tais desfechos.

Palavras-chave: Gravidez, Alcoolismo, Recém-nascido, Nicotina, Cocaína, Uso da maconha.

Abstract

The neuropsychomotor development involves the formation of language, cognition, motor skills, and social abilities. This process can be influenced by various factors, such as the use of drugs during pregnancy. This study aims to ascertain the alterations in the neuropsychomotor development of newborns born to women who used legal drugs such as tobacco and alcohol, and/or illegal drugs such as marijuana, cocaine, and crack during pregnancy. This literature review was conducted by searching for articles published in Portuguese, English, Spanish, and French in the PubMed and Scientific Electronic Library Online (SciELO) databases, published and indexed in the last 10 years. Based on the selected articles, they were categorized for analysis according to drug exposure to the fetus during gestation: (1) alcohol; (2) tobacco; (3) cocaine and crack; (4) marijuana. Complex alterations were found in the neuropsychomotor development of newborns, with long-term consequences, thus necessitating better screening, monitoring, and support for pregnant women, prioritizing complete abstinence from these substances and avoiding such outcomes.

Keywords: Pregnancy, Alcoholism, Infant, newborn, Nicotine, Cocaine, Marijuana use.

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento neuropsicomotor envolve a formação da linguagem, da cognição, da motricidade e das habilidades sociais e é o resultado de fatores biológicos, ambientais, físicos, sociais e emocionais. Esse processo ocorre de forma minuciosa e pode ser afetado por diversas causas1. Durante a formação fetal, ocorrem várias etapas para o desenvolvimento cerebral, como a migração neuronal, a sinaptogênese e a expressão de receptores que podem ser alvos de substâncias consumidas pela mãe2. O uso de drogas durante a gestação pode levar a consequências anatomofuncionais permanentes no cérebro fetal, visto que a maioria das drogas de abuso atravessa facilmente a barreira placentária e pode afetar o desenvolvimento do sistema nervoso do recém-nascido2-6. Como principais substâncias utilizadas, têm-se as drogas lícitas mais comumente usadas, como álcool e tabaco, e as ilícitas, como maconha, cocaína e crack, que afetam tanto a mãe como o feto. Portanto, vê-se como necessária a criação e utilização de técnicas que permitam o rastreio e o monitoramento da exposição gestacional às drogas de abuso, visando a prevenção e a intervenção precoce a fim de evitar e reduzir os danos neonatais e pós-natais2,4,7,8.


MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de uma revisão integrativa, com coleta de dados realizada a partir de fontes secundárias, por meio de levantamento bibliográfico. Para o levantamento dos artigos na literatura, será realizada uma busca com os seguintes descritores: "pregnancy", "drugs during pregnancy", "newborn", "nicotine", "alcoholism" e "drugs illicit" nas seguintes bases de dados: PubMed e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Os critérios de inclusão definidos para a seleção dos artigos serão: artigos publicados em português, inglês, espanhol e francês; artigos na íntegra que retratem a temática referente à revisão integrativa e artigos publicados e indexados nos referidos bancos de dados nos últimos 10 anos. 


OBJETIVO

O presente estudo tem como objetivo principal identificar as alterações no desenvolvimento neuropsicomotor de recém-nascidos filhos de mães que fizeram o uso de drogas lícitas, como tabaco e álcool, e/ou ilícitas, como maconha, cocaína e crack, durante o período gestacional.


RESULTADOS

Álcool


O álcool é uma substância teratogênica e pode causar problemas ao recém-nascido, uma vez que ele é absorvido pela placenta e é transportado até a corrente sanguínea fetal. O uso dessa substância na gravidez predispõe os fetos a riscos à saúde e está relacionado a resultados como a restrição do crescimento fetal e a síndrome alcoólica fetal (SAF), uma manifestação grave que está associada à redução do peso cerebral e a atrasos cognitivos, e distúrbios/ transtornos do espectro alcoólico fetal (FASD), que resultam em malformações congênitas2,9.

O nível de acometimento da criança leva em consideração o período da gestação e de como a bebida foi ingerida. Até a 8ª semana de gestação, conhecido como período embrionário, ocorrem mais frequentemente malformações estruturais, inclusive graves, e, entre a 9ª e a 40ª semana de gestação, o sistema nervoso central (SNC) pode apresentar disfunções, além do risco de aborto8. Outras consequências à saúde do feto e do recém-nascido, decorrentes do consumo de álcool durante a gravidez, são diminuição do peso do cérebro, redução do peso ao nascer, atrasos cognitivos, parto prematuro e natimorto, além de incluir malformações cranianas2,9. Também podem ser observadas alterações na audição e na visão. Recém-nascidos com FASD podem apresentar redução do perímetro cefálico e podem desenvolver alterações neuropsicomotoras, como problemas na coordenação e no comportamento e redução da atenção9.

Desse modo, a fim de proteger a mãe e o recém-nascido dos malefícios do álcool durante a gestação, é importante acolher e orientar as gestantes usuárias de álcool durante o pré-natal10. Portanto, vê-se como necessário o uso de intervenções, como entrevistas motivacionais, que podem diminuir o consumo de álcool na gestação, conscientização e educação da população por meio da mídia, trabalho dos agentes comunitários para triagem e o apoio social na prevenção do uso do álcool nessa fase da vida da mulher11. E, como o mais importante, a abstinência completa do álcool durante o período gestacional8.

Tabaco

Diferente do que muitos pensam, as drogas lícitas, como o tabaco, podem causar tantos danos ao feto durante a sua formação quanto as substâncias ilícitas, podendo ser até mais nocivas7,11. O hábito de fumar durante o período gestacional não só traz efeitos prejudiciais para o nascimento, como descolamento prematuro da placenta e baixo peso ao nascer, como também pode levar a alterações no neurodesenvolvimento2,11-13. Para que o recém-nascido apresente um funcionamento adequado das funções cerebrais é necessário que ocorra um processo de maturação e organização do sistema nervoso central de forma apropriada. Contudo, durante o período gestacional, o sistema nervoso em desenvolvimento adquire maior plasticidade e, dessa forma, fica mais suscetível às ações deletérias dos componentes do tabaco13.

A principal substância psicoativa do tabaco é a nicotina e, mesmo diante do conhecimento de suas consequências maléficas à saúde, seu uso ainda é um tema pendente para a saúde mundial2,12. A nicotina é um agonista do receptor nicotínico de acetilcolina (nAChR) e atravessa a barreira placentária assim como seu metabólito, a cotinina. Esse receptor é expresso em humanos desde o início da formação fetal, sendo encontrado em inúmeras regiões do cérebro, e através dele ocorrem diversas alterações no desenvolvimento do sistema nervoso quando o feto é exposto à nicotina2,12,13. Uma das causas desses desajustes no SNC pode estar relacionada a disfunções de proliferação e de diferenciação celular no feto com o sistema colinérgico prejudicado, um dos participantes fundamentais da formação cerebral2,5.

Além de afetar o sistema colinérgico, essa substância também acomete os sistemas dopaminérgico, noradrenérgico e gabaérgico, e interfere na formação das sinapses, na liberação de neurotransmissores e na migração neuronal2,12. Em um estudo realizado com camundongos12, analisou-se a exposição do sistema nervoso central em desenvolvimento à nicotina e puderam-se observar alterações em redes neurais envolvendo o córtex frontal, região importante para a memória, atenção, cognição e regulação emocional, o cerebelo e o corpo estriado e as vias de sinalização de catecolaminas e do GABA no córtex frontal12,13. Assim, sabe-se que os componentes do tabaco podem causar diversos danos anatomofuncionais do sistema nervoso durante o desenvolvimento fetal que podem trazer distúrbios neuropsicomotores a curto e a longo prazo2,12,13.

A exposição intrauterina à nicotina leva ao aumento da irritabilidade, da tonicidade, dos tremores e das respostas musculoesqueléticas súbitas, redução da atenção e alteração da projeção da fala em recém-nascidos. Também pode-se observar uma maior reação a estímulos auditivos, favorecendo o surgimento de déficits de aprendizagem e de linguagem a longo prazo2. Além do baixo peso, podem apresentar menores altura e perímetro cefálico e são mais propensos a ficarem internados em unidades de terapia intensiva neonatal (UTIN), um fator que também pode elevar o risco de atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, dependendo do tempo de internação2,7. O fumo passivo também é um agente causador de problemas cognitivos e comportamentais em recém-nascidos expostos11.

Os efeitos do tabagismo durante a gestação não se limitam aos neonatos, podendo acompanhá-los ao longo de suas vidas. Dificuldades de aprendizagem, atenção e memória, distúrbios psiquiátricos, como ansiedade e problemas comportamentais e baixo desempenho motor podem ser encontrados em crianças e adolescentes que foram expostos ao tabaco no período gestacional2,5,7,12.

É importante ressaltar que o uso de cigarros eletrônicos e o fumo passivo pela gestante também são prejudiciais para o neurodesenvolvimento fetal, devido à alta toxicidade da nicotina2,13.

Portanto, diante de todos os males sofridos pelos neonatos e causados pela exposição ao tabagismo no período pré-natal, faz-se necessária a interrupção do hábito de fumar antes da gravidez, a fim de evitar transtornos do desenvolvimento neuropsicomotor no recém-nascido e suas futuras consequências2,7,11.

Cocaína e Crack

A cocaína também pode atravessar a barreira placentária e hematoencefálica e seu consumo influencia negativamente a gestação, podendo levar a um parto prematuro ou, até mesmo, afetar o crescimento fetal, com diminuição do comprimento e do peso ao nascer, devido ao efeito vasoconstritor da droga, reduzindo o fluxo sanguíneo para o feto2,14. O uso do crack durante a gestação pode causar, de forma precoce, a ruptura do saco amniótico e o descolamento da placenta, além de comprometer o desenvolvimento neuropsicomotor da criança10.

O desenvolvimento inadequado do cérebro de neonatos de mães usuárias de cocaína pode ser observado por uma diminuição do perímetro cefálico, um fator prognosticador para alterações neurocomportamentais, e microcefalia9. Podem ser vistos déficit de linguagem, de execução e de comportamento em pacientes que foram expostos à cocaína durante o período gestacional. Em bebês, foram observados prejuízos motores, menor excitação, nervosismo e alterações nos reflexos2. Transtornos comportamentais também podem estar presentes em recém-nascidos filhos de usuárias de crack6.

Entretanto, vale ressaltar que as alterações vistas nos recém-nascidos dependem do tempo de exposição à droga, da sua quantidade e do período gestacional2,7,9. Dessa forma, um estudo feito em 2013, por Richardson et al. (2013), relatou que quando um feto é exposto à cocaína no primeiro trimestre, ele pode ter problemas comportamentais e de ansiedade e uma menor sociabilidade no futuro2,15.

Em relação aos distúrbios anatomofuncionais, foram observados infartos corticais, distúrbios da migração neuronal e maior frequência de hemorragias periventriculares em indivíduos expostos à cocaína durante a gestação em estudos com ressonância magnética relatados por Chris Derauf et al. (2009)16,17.

Sendo assim, diante dos riscos e complicações nos recém-nascidos expostos à cocaína e ao crack no período intrauterino, faz-se necessária a criação e aplicação de protocolos clínicos para o manejo desses pacientes6.

Maconha

A maconha é a droga ilícita mais utilizada na gestação e lactação, podendo ser vista por muitos como a mais inofensiva. Entretanto, essa substância traz diversos danos, inclusive in utero11. Além disso, diante do aumento da ansiedade como, por exemplo, durante a pandemia da COVID-19, o uso da maconha tem se tornado mais frequente em pessoas de idade fértil4. O uso dessa substância durante a gestação possui uma associação com parto prematuro, diminuição do peso ao nascer e, até mesmo, com natimorto9,18.

Tal droga é formada pela substância ativa delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) que tem a capacidade de se ligar ao receptor canabinoide-1 (CB-1), presente no segundo trimestre da gestação, afetando o desenvolvimento fetal e podendo levar a alterações cerebrais estruturais, sendo algumas delas no núcleo accumbens, quando ocorre a exposição intrauterina à maconha2,9. Além disso, sabe-se que a exposição à maconha na fase pré-natal afeta o aprendizado e a memória2.

Em relação ao pós-parto, os efeitos observados em recém-nascidos expostos à maconha são distúrbiosdo sono, alteração a estímulosvisuais, estado de alerta, excitabilidade e tremores2,16. Em relação à amamentação, os componentes químicos da maconha, principalmente o THC, podem ser passados por meio do leite materno, necessitando de uma maior diligência dos profissionais de saúde, pois a criança exposta também pode ter seu desenvolvimento motor prejudicado18.

Os efeitos nocivos da maconha durante a gestação não afetam apenas o recém-nascido. Estudos mostram déficit neurocomportamentais, como nas atividades executivas, e alterações neuropsiquiátricas em crianças maiores também. Somado a isso, tem-se observado um aumento da concentração de THC na maconha, elevando a atenção dos profissionais de saúde para o assunto2.


CONCLUSÃO

Conclui-se que os recém-nascidos filhos de mães usuárias de drogas lícitas e/ou ilícitas durante o período gestacional poderão ter alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, sendo o cérebro a principal estrutura afetada2.

Dentre as drogas lícitas mais utilizadas encontra-se o álcool, que afeta de forma diferente de acordo com o período da gestação, e o tabaco, que prejudica diferentes sistemas do organismo, principalmente nas questões anatomofuncionais do sistema nervoso durante o desenvolvimento fetal2,8,12,13.

No âmbito de drogas ilícitas, destaca-se a maconha, muito subestimada em relação às suas consequências, porém causa diversos danos ao decorrer da vida do feto exposto11. Ademais, encontra-se o crack, associado a partos prematuros, e a cocaína, relacionada ao crescimento físico fetal prejudicado e demais problemas neurológicos e comportamentais dependendo do tempo de exposição2,18.

Diante disso, há a necessidade de aprimorar as estratégias de rastreio e monitoramento de exposição in utero a drogas, por meio da triagem dos agentes comunitários e das consultas de pré-natal, a fim de prevenir agravos relacionados ao desenvolvimento neuropsicomotor do recém-nascido e das crianças7,10,11. Ademais, a educação da população, conscientizando por meio da mídia, e a estimulação do apoio social também são recursos que colaboram para a prevenção do consumo de substâncias prejudiciais durante a gestação11.


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Universidade Nove de Julho - São Paulo - São Paulo - Brasil

Endereço para correspondência:
Luana Manias
Universidade Nove de Julho
Rua Vergueiro, 235/249, Liberdade, São Paulo, Brasil
E-mail: luana.manias@gmail.com

Data de Submissão: 19/06/2024
Data de Aprovação: 23/01/2025

Sobre os autores

1 Universidade Nove de Julho - São Paulo - São Paulo - Brasil.

Endereço para correspondência:

Luana Manias

Universidade Nove de Julho Rua Vergueiro, 235/249, Liberdade, São Paulo, Brasil

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Manias, L, Batista, DCA, Nascimento, DCM, Prado, LLT, Silva, MER, Hirata, AM. Impacto do abuso de drogas na gestação no desenvolvimento neuropsicomotor. Resid Pediatr. 15(3):1-5. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1302

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