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O papel da qualidade da interação familiar no estresse infantil e em problemas emocionais e comportamentais na prole: revisão narrativa de literatura
The Role of the Quality of Family Interaction in Childhood Stress and Emotional and Behavioral problems in offspring - narrative literature review
Larissa Hallal Ribas1; Karen Jansen1
RESUMO
OBJETIVO: Identificar evidências disponíveis sobre a relação entre a qualidade da interação familiar, estresse e problemas emocionais e comportamentais infantis.
MÉTODOS: Revisão narrativa de literatura. A busca foi realizada nas bases de dados PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde, de abril de 2021 a dezembro de 2022. Foram considerados elegíveis estudos primários e secundários realizados em crianças entre 5 e 10 anos, que avaliaram a relação entre a exposição e os desfechos avaliados.
RESULTADOS: Encontrados 4.797 artigos, selecionados 1.314 títulos, dos quais 544 não se repetiram. Foram lidos 458 resumos e selecionados 63, que preencheram os critérios de elegibilidade. A maioria dos estudos incluídos revela que a pior qualidade da interação familiar tem relação com estresse e problemas emocionais e comportamentais infantis.
DISCUSSÃO: A parentalidade positiva e afetuosa pode atenuar a resposta tóxica ao estresse, e os problemas emocionais e comportamentais. Os pais são essenciais ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais e à construção da resiliência infantil, apesar das adversidades que as crianças possam enfrentar.
CONCLUSÃO: A prevenção de problemas de saúde mental na prole inclui o afeto e a coerência parental, além de práticas parentais positivas, autoritativas, não permissivas e não punitivas, promovendo relações saudáveis e estimulantes.
Palavras-chave: Relações familiares, Criança, Saúde mental, Estresse psicológico, Comportamento infantil.
Abstract
OBJECTIVE: Identify available evidence on the relationship between the quality of family interaction, stress, and childrens emotional and behavioral problems.
METHODS: Narrative literature review. The search was conducted in the Pubmed and Virtual Health Library databases from April 2021 to December 2022. Primary and secondary studies in children between 5 and 10 years old that evaluated the relationship between exposure and outcomes were considered eligible.
RESULTS: 4,797 articles were found, 1,314 titles were selected, and 544 were not repeated. 458 abstracts were read, and 63 were selected, which met the eligibility criteria. Most of the studies revealed that the worse quality of family interaction is related to childhood stress and emotional and behavioral problems.
DISCUSSION: Positive and affectionate parenting can mitigate the toxic stress response and emotional and behavioral problems. Parents are essential to developing socio-emotional skills and building childrens resilience despite the adversities children may face.
CONCLUSION: Prevention of mental health problems in offspring includes parental affection and coherence, as well as positive, authoritative, non-permissive, and non-punitive parenting practices, promoting healthy and stimulating relationships.
Keywords: Family Relations, Child, Mental Health, Stress, physiological, Child behavior.
O estresse infantil pode ser definido como qualquer ameaça pessoal, real ou imaginada, que sobrecarrega a criança e leva a mudanças emocionais e psicológicas1, como ansiedade, dificuldades interpessoais, introversão súbita, insegurança, agressividade, angústia e depressão2. Ainda, podem ser observadas reações fisiológicas1, como dor abdominal, diarreia, tiques, cefaleia, náusea, enurese noturna, gagueira, tensão muscular, ranger dos dentes, dificuldade para respirar, distúrbios nutricionais2. A exposição precoce a adversidades estressoras, sem um atenuante psicossocial, pode levar a uma resposta mal adaptativa, através da desregulação do sistema neuroendócrino e imunológico, via Eixo Hipotalâmico-Hipofisário, caracterizando o estresse tóxico3. Ainda que seja um sintoma, e não uma patologia, a exposição crônica ao estresse infantil está associada ao risco de depressão4, doenças cardiovasculares5, pulmonares obstrutivas5 e autoimunes6, na vida adulta.
Os problemas emocionais infantis, por sua vez, referem-se à internalização de sintomas emocionais, como depressão e ansiedade7 e estão relacionados à depressão na vida adulta8,9. Já os problemas comportamentais se referem à externalização de reações, como oposição7, desatenção8,9, hiperatividade8,9 e agressividade8,9. Os comportamentos problemáticos na infância estão relacionados à maior rejeição de pares no início da adolescência10, ao uso moderado de serviços de saúde psiquiátricos por adolescentes11 e ao risco elevado de características antissociais em adultos12.
Durante a infância, existem períodos sensíveis e críticos, em que experiências vividas podem esculpir o desenvolvimento cerebral, conforme revela a epigenética13. A idade escolar14 é um desses períodos, e é crucial para o desenvolvimento de problemas de saúde mental15, por ser o momento em que se iniciam novas interações sociais, no qual as dificuldades em cumprir expectativas se tornam mais perceptíveis pela criança15. Além disso, depara-se com mais desafios, como pressão, aceitação e rotulagem de pares16. Assim, pesquisas realizadas com escolares são importantes para a prevenção de problemas de saúde mental infantil e de resultados desfavoráveis à saúde física e emocional na adolescência e na vida adulta. Para a elaboração dessas práticas preventivas é fundamental a identificação de fatores relacionados com o desenvolvimento de estresse e de problemas emocionais e comportamentais em escolares.
Os pais são a base do funcionamento socioemocional infantil17, atuando como “reguladores externos” na socialização das emoções infantis, por meio de instrução, modelagem e definição de expectativas comportamentais18. Não somente a existência desse vínculo, mas também a qualidade dele e, portanto, da interação entre pais e filhos, podem estar relacionadas com os resultados em saúde mental na prole, tanto positiva quanto negativamente. A literatura aponta que algumas práticas parentais, juntamente com aspectos subjetivos do relacionamento familiar, fornecem informações sobre a qualidade da interação familiar19. Diante disso, o objetivo desta revisão é identificar evidências disponíveis sobre a relação entre a qualidade da interação entre pais e filhos, bem como entre os pais, estresse e problemas emocionais e comportamentais infantis; fornecer uma perspectiva mais abrangente do conhecimento relacionado; analisar lacunas de conhecimento e sugerir pesquisas futuras.
MÉTODOS
Revisão narrativa de literatura, não sistemática. Os achados foram reportados de acordo com Scale for the Assessment of Narrative Review Articles20. A busca na literatura foi realizada nas bases de dados PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), de abril de 2021 a dezembro de 2022. Os descritores utilizados em ambas as bases de dados foram: school children, parent-child relationship quality, parenting practices, parent-child relationship, positive parenting, negative parenting, parent model, parent-child attachment, corporal punishment child, abusive parenting, effective discipline, harsh parenting, emotional and behavioral problems, Strengths and Difficulties questionnaire, internalizing externalizing problems, toxic stress children, toxic stress childhood, perceived stress e perceived stress scale. Na BVS, utilizaram-se, também, os seguintes descritores: escolares, relações Pais-filhos, Estresse infantil, Escala de Qualidade de Interação familiar, Escala de Stress infantil e Qualidade de Interação familiar.
Como fonte de evidências, incluíram-se estudos primários e secundários, limitados aos últimos 5 anos, sem restrição de idioma. Foram considerados elegíveis 1) estudos realizados em crianças em idade escolar, entre 5 e 10 anos, 2) estudos que avaliaram a qualidade da interação familiar, bem como características subjetivas relacionadas a ela e práticas parentais e 3) estudos que incluíram os desfechos avaliados (estresse infantil e problemas comportamentais e emocionais em escolares). Excluíram-se artigos 1) que não abrangeram a idade escolar e 2) que utilizaram apenas medidas biológicas de avaliação.
Os dados coletados foram inseridos em formulário previamente elaborado no Microsoft® Excel 16.29.1 (Microsoft Office 2019, Microsoft, Redmond, Estados Unidos). Os dados extraídos compreenderam: autor principal, revista, ano, objetivo, método (delineamento, amostra e instrumentos utilizados) e principais resultados. Um resumo narrativo e descritivo foi elaborado para sintetizar os resultados e descrever as evidências identificadas em relação ao objetivo da revisão. Os principais resultados também foram expostos em um quadro de revisão (Quadro 1).
RESULTADOS
Em ambas as bases de dados, foram encontrados ao todo 4.797 artigos. Foram selecionados 1.314 títulos, dos quais 544 não se repetiram. Foram lidos 458 resumos e selecionados 63 artigos que preencheram os critérios de eligibilidade.
Na literatura revisada, na maioria dos estudos os respondentes dos instrumentos de avaliação da qualidade da interação familiar, do estresse infantil e dos problemas emocionais e comportamentais foram pais e/ou cuidadores. Destacam-se os estudos em que o autorrelato infantil foi utilizado para avaliar práticas parentais, como monitoramento parental passivo e comunicação da criança com os pais21, percepção sobre apoio parental e paternidade controladora22 e insegurança emocional com relação aos familiares, percepção de conflito interparental23. Em outros estudos, crianças e adolescentes responderam ao Child Behavior Checklist24, ao Strengths and Difficulties Questionnaire25 e também sobre a percepção do seu próprio estado de saúde, bem-estar, desempenho social e acadêmico26. Já o estresse autorreportado pelas crianças foi avaliado em dois estudos12,27.
A qualidade da interação familiar pode ser avaliada através de práticas educativas parentais e de aspectos de interação familiar que, somados, fornecem um padrão de comportamento familiar19. Assim, os estudos elegíveis avaliaram aspectos como estratégias de monitoramento parental passivos e ativos e eficácia parental21; paternidade intrusiva28; paternidade negativa, positiva e comunicação entre pais e filhos29; disciplinas física e verbal ante a um comportamento inadequado da criança30; calor parental24,31; atenção parental positiva11; monitoramento e supervisão parental23; apoio parental32; conflito conjugal33; apego materno27; paternidade severa34; conflito parental23,35 e insegurança emocional com os pais23. Ainda, estudos utilizaram escores globais da qualidade da interação familiar e avaliaram relações conflitantes entre pais e filhos, através da Parent-Child Relationship Scale17; nível da relação familiar, através da Brief Family Relationship Scale15; e qualidade do relacionamento entre pais e filhos, através do Life Changes questionnaire21.
Para avaliar o estresse infantil, os estudos incluídos utilizaram o Stress in Children questionnaire27, a Post-Stress Growth Scale for Children12 e a Perceived Stress Scale36. Para avaliar problemas emocionais e comportamentais infantis, a maioria dos estudos incluídos utilizaram o Strengths and Difficulties Questionnaire15,17,23,25,30-33,37-39 e o Child Behavior Checklist (CBCL)11,21,24,25,28,30,34,40-42.
Estudos apontam que relacionamentos protetores43, seguros, estáveis e estimulantes44 podem ser fatores psicossociais atenuantes ao desenvolvimento de estresse infantil43,44, bem como presença de cuidador carinhoso45 e de apoio12, o que sugere envolvimento parental e, portanto, maior qualidade da interação familiar19. Além disso, outras características positivas da interação familiar podem ter relação com menores problemas emocionais e comportamentais na prole, como existência de regras e monitoria17,35, comunicação positiva dos filhos46, clima conjugal positivo33, modelo parental7,32 e sentimentos dos filhos23,47. Por outro lado, algumas características negativas podem ter relação com mais problemas emocionais e comportamentais infantis, como comunicação negativa30,32, clima conjugal negativo23,25,34 e punição corporal17,32,35,37,48.
Os principais achados da revisão estão descritos no Quadro 1.
DISCUSSÃO
A literatura aponta que um cuidador pode modular a excitação emocional e fisiológica relacionada ao estresse em crianças49, tanto positiva quanto negativamente. Evidencia-se que o estresse, na ausência de relacionamentos protetores, pode rapidamente se tornar tóxico, prejudicando a saúde mental e física das crianças43. Assim, o estresse tóxico pode ser entendido como os processos biológicos que ocorrem após a ativação extrema ou prolongada dos sistemas de resposta ao estresse do corpo, na ausência de relacionamentos seguros, estáveis e estimulantes44.
Ainda, a presença de um cuidador carinhoso pode atenuar as perturbações fisiológicas associadas a uma resposta tóxica ao estresse45 e também o envolvimento parental, que engloba o apoio fornecido aos filhos19. Estudo conduzido com crianças chinesas, entre 8 e 12 anos, revelou que o suporte percebido pelas crianças mediou a relação entre o estresse percebido por elas e as mudanças positivas que tiveram, após o enfrentamento ao estresse. O suporte social parental também foi positivamente relacionado com essas mudanças, conhecidas como crescimento pós-estresse36, que indicam resiliência. Esses achados vão de encontro à importância da saúde relacional, que pode ser considerada um atenuante das adversidades que a criança pode experimentar, e também um auxílio para promover proativamente a resiliência futura. Dessa forma, a saúde relacional positiva pode promover proativamente as habilidades necessárias para responder às adversidades de maneira saudável e adaptativa44.
Conforme a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o diagnóstico de Transtorno do Estresse Agudo envolve eventos testemunhados, mas não se limitam a observar lesão ameaçadora ou grave, morte não natural, violência física ou sexual infligida a outra pessoa em decorrência de ataque violento, e violência doméstica grave54. Um clima conjugal negativo indica se os pais interagem de forma agressiva, com brigas, xingamento e diálogo negativo entre si19. Assim, violência doméstica grave sugere clima conjugal negativo e, portanto, menor qualidade da interação familiar. Da mesma maneira, disfunção doméstica e negligência também refletem qualidades negativas da interação familiar e podem ser consideradas adversidades no início da vida ou Experiências Adversas na Infância. Embora influenciadas pela variabilidade genética e por fatores sociais e biológicos, essas adversidades, vividas precocemente, atuam no organismo infantil como um estressor3.
Sobre os problemas emocionais e comportamentais, a pior relação entre pais e filhos esteve associada com mais problemas emocionais e de conduta em crianças tailandesas15. Ainda, altos níveis de conflito destrutivo entre pais e filhos ganeses estiveram associados a maiores problemas emocionais na prole17. Também o conflito familiar teve relação com problemas comportamentais em crianças brasileiras, e a coesão familiar correlacionou-se negativamente com comportamento agressivo na prole30. Para interpretar os achados, é importante considerar características culturais distintas que influenciam a criação dos filhos. Ainda assim, os achados destacam a importância de relações pais-filhos saudáveis, coesas e com conflitos construtivos.
Além do mais, o conflito interparental foi relacionado com menor comportamento pró-social na infância e maior rejeição de pares34. Ainda, o conflito de casal foi relacionado com severidade parental, que, por sua vez, foi significativamente relacionada com problemas comportamentais infantis34. Em outra análise, o conflito interparental, tanto físico quanto verbal, associou-se a problemas emocionais e comportamentais. Este estudo destacou também que as associações foram mais fortes para o conflito físico repetido em comparação com uma única exposição25. Assim, observa-se a importância de relações positivas e funcionais entre pais e filhos, mas também entre os pais, sejam eles um casal, ou não.
Práticas parentais autoritárias, como “algumas pessoas proíbem outras de fazer determinadas coisas, sem explicar o porquê”, foram relacionadas com problemas de atenção em crianças brasileiras30. Também, disciplina parental severa, que inclui proferir xingamentos gritando e práticas de punição corporal, relacionou-se com maiores problemas de conduta e hiperatividade em crianças inglesas30. A parentalidade severa moderou o efeito da adversidade ambiental nas dificuldades internalizantes e externalizantes em crianças, aumentando o nível de problemas emocionais e comportamentais em crianças expostas a altos níveis de desvantagem socioeconômica familiar e a Experiências Adversas na Infância30. Assim, revela-se a importância do incentivo à comunicação positiva entre pais e filhos.
A crença na punição corporal como prática parental de disciplina esteve associada à menor competência social infantil e maiores problemas comportamentais e de atenção infantis17. Punição corporal realizada pelos pais foi apontada como fator de risco significativo para problemas emocionais e comportamentais em crianças e adolescentes39. Além disso, maus-tratos na infância, incluindo punição corporal, foram positivamente associados a medidas de psicopatologia e negativamente associados a medidas pró-sociais37. Destaca-se, ainda, que todos os grupos de categorias diagnósticas avaliadas (transtorno de hiperatividade e déficit de atenção, de ansiedade de separação, de ansiedade social; fobia específica ou agorafobia; transtornos de angústia, de ansiedade generalizada; depressão ou transtorno de estresse pós-traumático; transtorno desafiador opositivo ou transtorno de conduta) tiveram níveis mais altos de maus-tratos do que as crianças com desenvolvimento típico37.
Por outro lado, calor parental e o reforço positivo foram associados a menos problemas de conduta em indivíduos com traços de insensibilidade e afetividade restrita29. Sugere-se que essas crianças tenham emoções pró-sociais limitadas e comportamento antissocial, devido aos traços que apresentam, e que, por isso, poderiam ter ainda mais problemas emocionais e comportamentais. Portanto, o envolvimento dos pais parece ser fundamental por estar associado com menores problemas de conduta, os quais poderiam prejudicar ainda mais a saúde mental e o comportamento pró-social infantil, incluindo o envolvimento da criança com os pais, como também com os pares.
Maior apoio materno recebido e oferecido aos filhos relacionou-se com menores problemas de comportamento e maiores comportamentos pró-sociais38. O maior apoio fornecido pela família também foi relacionado ao desempenho social infantil e ao bem-estar da criança26. A percepção infantil de maior apoio parental, atenção recebida e paternidade sensível, relacionou-se com maior autoconceito positivo. Por outro lado, quanto mais controladores foram os pais, envolvendo castigo físico e autoridade incontestável, menor foi o autoconceito positivo. A avaliação de autoconceito investiga aspectos sobre as formas de se perceber e se valorizar22, que refletem a autoestima infantil. Logo, podem contribuir para a autonomia infantil. Já o menor apoio parental recebido associou-se a maiores problemas de atenção30.
Em contrapartida, a coerção e a negligência dos pais relacionaram-se à maior agressividade indireta em meninos e meninas55. A agressividade indireta inclui falas mentirosas, fofocas, críticas à aparência física e pode comprometer o comportamento pró-social e a relação com os pares, ainda mais ao ingressar na idade escolar, quando iniciam novas interações. Além disso, filhos de pais autoritários demonstraram maior hiperatividade, problemas de conduta e sintomas emocionais, e menor comportamento pró-social, em comparação com filhos cujos pais pertenciam a outro estilo de criação32. Os pais foram considerados autoritários quando menos afetuosos e menos envolvidos no relacionamento com seus filhos, com parentalidade caracterizada também por punição física rígida, sem estabelecer regras claras para o comportamento de seus filhos e sem monitoria32.
A falta de supervisão dos pais teve relação com maior agressão aberta em meninos e meninas55, incluindo bullying severo, destruição de propriedade e brigas físicas55. Isso pode ser prejudicial ao comportamento pró-social das crianças e ao relacionamento com os pares, especialmente em uma fase da vida em que a criança se depara com desafios como pressão, aceitação e rotulagem dos pares16. Por outro lado, o alto envolvimento dos pais na educação, supervisionando e auxiliando nas tarefas da criança, foi associado à maior saúde física e maior funcionamento escolar da criança, incluindo não somente ter melhores notas, mas também ter motivação para ir para a escola17, o que pode contribuir para melhor relacionamento com os pares e comportamento pró-social, ao frequentarem regularmente o colégio. Também, o controle parental positivo, ou seja, a regulação dos pais sobre o comportamento de seus filhos, por exemplo, por meio de monitoramento, estabelecimento de regras e supervisão, associou-se a maior comportamento pró-social37.
A comunicação positiva entre pais e filhos é uma estratégia específica de monitoramento parental passivo21. Níveis mais altos de discussões, como conversa dos pais sobre o dia a dia e planos das crianças, e a maior regularidade das conversas, foram associados a menos problemas de conduta na prole21. Comportamentos de socialização emocional dos pais, como discussão de emoções, estavam mais fortemente associados a problemas de conduta em idades mais jovens, quando os comportamentos estavam focados na socialização de emoções negativas em vez de positivas46. Assim, após a literatura apontar os prejuízos da comunicação negativa à saúde mental da prole, evidencia-se a importância da comunicação positiva para a prevenção de problemas comportamentais. No entanto, mais pesquisas são necessárias para estabelecer a relação entre comunicação positiva e problemas emocionais.
Da mesma forma, características de comunicação e da relação entre o casal também são importantes para a saúde mental da prole. O clima conjugal positivo caracteriza-se pela boa e afetuosa relação entre o casal, com a manutenção do diálogo e do respeito entre si19, o que pode contribuir para conflitos conjugais positivos, quando ocorrerem. Afinal, o conflito conjugal é inevitável e, como tal, as crianças podem testemunhá-lo. Em alguns casais, o conflito pode ocorrer de maneira positiva e construtiva; em outras, de maneira negativa e destrutiva. Portanto, o conflito conjugal construtivo pode beneficiar os resultados positivos da criança, ensinando-lhes habilidades de resolução de problemas e formas eficazes de comunicação, promovendo relações sociais mais positivas33. O conflito conjugal construtivo foi inversamente associado a problemas emocionais e comportamentais infantis33. Já o conflito conjugal destrutivo, incluindo esquiva-capitulação e agressão verbal, foi significativamente associado a problemas de externalização em meninos e a problemas de internalização em meninas33. Percebe-se, assim, a importância da maneira como os pais casados conduzem os conflitos.
A parentalidade autoritativa positiva e congruente relacionou-se com menores problemas de conduta significativamente em comparação com parentalidade intrusiva e autoritária32. Pais autoritativos são positivos quando demonstram ternura, envolvimento, estabelecem regras e as monitoram. Esses pais se concentram em promover o comportamento desejado, sendo, portanto, coerentes, pois ensinam o que consideram adequado, ao mesmo tempo em que incentivam esses comportamentos e disciplinam comportamentos inadequados e/ou indesejados, raramente utilizando punições físicas rígidas32.
Em programa brasileiro de incentivo à parentalidade positiva39, após sessões individuais, foram observados efeitos positivos em depressão materna bem como menores problemas de conduta e hiperatividade, nos filhos de mães do grupo experimental, comparando o pré com o pós-teste. Além disso, no pós-teste, os dados observacionais também indicaram melhora significativa na interação positiva entre mães do grupo experimental e sua prole, em comparação com as díades do controle39. Mostra-se a importância de programas e de políticas públicas de incentivo ao cuidado com a saúde mental dos pais, e que certas práticas parentais são passíveis de mudança e intervenção, com resultados positivos tanto para os cuidadores quanto para a prole. Revela-se a importância do encorajamento de habilidades parentais que promovem competência por meio de práticas parentais positivas.
Como limitação, os achados devem ser interpretados com cautela devido à faixa de idade incluída neste estudo, não podendo ser generalizados para outras faixas etárias. Diante disso, sugerem-se pesquisas futuras que ampliem a idade das crianças avaliadas. Além disso, considera-se que as revisões da literatura estão sujeitas a vieses de publicação, pois é mais provável publicar estudos que confirmem a relação entre exposição e desfecho que estudos com resultados não significativos.
CONCLUSÃO
Por fim, algumas práticas parentais, juntamente com outros aspectos da relação familiar, fornecem informação sobre qualidade da interação familiar. Conforme a maioria dos estudos incluídos nesta revisão, a pior qualidade da interação familiar tem relação com estresse infantil e problemas emocionais e comportamentais. Portanto, a prevenção de problemas de saúde mental na prole inclui o incentivo à saúde relacional, o qual devem ser iniciado ainda no período pré-natal56, estendendo-se pela infância e adolescência dos filhos, de maneira a reduzir possíveis problemas mentais e clínicos na vida adulta. Os pais são essenciais para apoiar e auxiliar no desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais básicas57, que podem permitir que as crianças sejam resilientes, apesar das adversidades que possam enfrentar.
Os resultados do nosso estudo destacam a importância da saúde relacional familiar baseada no afeto, na coerência e em práticas parentais positivas, autoritativas, não permissivas e não punitivas, promovendo relações saudáveis e estimulantes. Revelamos também a importância de estratégias de saúde pública que identifiquem ambientes familiares disfuncionais e previnam e identifiquem resultados adversos na saúde mental das crianças.
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Universidade Católica de Pelotas, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comportamento - Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
Endereço para correspondência:
Larissa Hallal Ribas
Universidade Católica de Pelotas.
Rua Gonçalves Chaves, 373, Centro, Pelotas, RS, Brasil. CEP: 96015-560.
E-mail: larissahallalribas@gmail.com
Data de Submissão: 09/08/2024
Data de Aprovação: 04/12/2024
Sobre os autores
1 Universidade Católica de Pelotas, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comportamento - Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil.
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Como citar este artigo:
Ribas, LH, Jansen, K. O papel da qualidade da interação familiar no estresse infantil e em problemas emocionais e comportamentais na prole: revisão narrativa de literatura. Resid Pediatr. 15(4):1-11. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n4-1322
