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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Supraventricular Tachycardia in a Newborn with Camptodactyly: Case Report

Supraventricular Tachycardia in a Newborn with Camptodactyly: Case Report

Rinaldo Fábio Souza Tavares1; Danielle Kauwane Latge2; Karina Andrade dos Reis Ferreira3; Luiza Oliveira Ribeiro3; João Moraes dos Santos Neves3; Mariah Nascimento Peres3; Joaquim Soletti3; Wesley Santos de Jesus3

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n4-1380 Residência Pediátrica, 15(4), 1-6

RESUMO

Taquicardia supraventricular (TSV) neonatal é definida como o aumento anormal da frequência cardíaca com origem acima do Feixe de His. A camptodactilia é uma deformidade congênita caracterizada pela flexão progressiva e não traumática da articulação interfalângica proximal (IFP). Descrevemos o quadro clínico e o manejo de uma taquicardia supraventricular em neonato, quadro não muito comum na prática diária do neonatologista, como também associado à camptodactilia, sendo essa associação ainda não relatada na literatura. Enfatizamos o diagnóstico precoce e seu tratamento adequado na crise, bem como profilaxia para novos episódios. Novos estudos poderão confirmar se essa associação é apenas fortuita (casual).

Palavras-chave: Neonatologia, Deformidades congênitas da mão, Taquicardia supraventricular.

Abstract

Neonatal supraventricular tachycardia (SVT) is defined as an abnormal increase in heart rate originating above the Bundle of His.Camptodactyly is a congenital deformity characterized by progressive and non-traumatic flexion of the proximal interphalangeal joint (PIP). We describe the clinical presentation and management of supraventricular tachycardia in neonates, a condition that is not very common in the daily practice of neonatologists, as well as patients with camptodactyly, and this association has not yet been reported in the literature. We emphasize early diagnosis and adequate treatment, both acutely, during the crisis, and also as prophylaxis for new episodes. New studies may confirm whether this association is just fortuitous (chance).

Keywords: Neonatology, Tachycardia, supraventricular, Hand deformities, congenital.

INTRODUÇÃO

Taquicardia supraventricular (TSV) neonatal é definida como o aumento anormal da frequência cardíaca, normalmente acima de 220 bpm, originando-se acima do Feixe de His, cujo padrão eletrocardiográfico apresenta ondas P nulas ou alteradas e complexo QRS estreito (<80ms)1. Trata-se de uma condição com espectro clínico variável que se apresenta em pacientes com ou sem doenças cardíacas congênitas1,2.

Segundo Revisão Sistemática realizada em 2023, apesar de pouco frequentes no período neonatal, a TSV corresponde à segunda taquiarritmia mais comum3. O mecanismo de reentrada se destaca na formação de TSV neonatal2,4-6.

Sua etiologia ainda é incerta com padrão de herança autossômica dominante em muitos casos, embora alguns sejam esporádicos7,8.

A classificação da camptodactilia baseia-se na idade de início e gravidade das contraturas. O tipo mais comum é o tipo I (infantil), surgindo nos primeiros anos de vida, afetando mais frequentemente o dedo mínimo de forma unilateral ou bilateral e de caráter puramente estético. O tipo II surge mais tardiamente, normalmente no estirão de crescimento puberal. Já o tipo III, camptodactilia sindrômica, apresenta-se desde o nascimento, como no caso apresentado, acometendo múltiplos dedos de forma bilateral e podendo estar associado a síndromes genéticas8,9.

O tratamento da camptodactilia varia conforme a gravidade da contratura7,9. A literatura acerca da associação entre TSV e camptodactilia em neonatos é limitada e até o momento não identificamos artigo que faça correlação entre as duas condições.


RELATO DE CASO

RN masculino, a termo, com 39 semanas de gestação, 4200g, classificado como grande para a idade gestacional. O RN nasceu de parto vaginal, sem intercorrências e com Apgar de 9 e 10.

Gestação sem intercorrências. Mãe de 21 anos, sem comorbidades conhecidas, Gesta 2 Para 1 Aborto 0, com 11 consultas de pré-natal, e sorologias negativas. Ausência de diabetes gestacional.

O RN foi encaminhado para o alojamento conjunto, alimentando-se em seio materno exclusivo e com controle da glicemia capilar, conforme rotina do serviço.

Ao primeiro exame, apresentava-se com pulsos palpáveis e simétricos, frequência cardíaca de 130 batimentos por minuto, frequência respiratória de 50 incursões por minuto, sem alterações na ausculta. O abdome e genitália encontravam-se sem alterações. Os reflexos neurológicos primitivos estavam presentes e simétricos. Observou-se presença de deformidades bilaterais em mãos (Figura 1a e 1b), além de sindactilia nos 4º e 5º dedos de ambos os pés, assemelhando-se a alterações congênitas manifestadas também pela mãe (Figura 1c e 1d).




Com 31 horas de vida, durante teste de oximetria de pulso, o RN apresentou episódio isolado de taquicardia com FC maior do que 200 bpm, acompanhada de cianose, sendo admitido na UTI neonatal. O RN foi acomodado em incubadora aquecida e colocado sob monitorização e eletrocardiograma, respirando em ar ambiente. Houve reversão espontânea do quadro. Após 5 horas em observação na UTI apresentou novo episódio, com FC de 290 bpm, diagnosticado como taquicardia supraventricular (Figura 2), acompanhado de cianose periférica e hipoatividade. Foi realizada manobra vagal, com colocação de gelo na região frontal e, como o ritmo sinusal não foi restabelecido, optou-se por administrar dose de ataque de amiodarona endovenosa de 5mg/kg, seguida por dose de manutenção oral de 5mg/kg/dia de 12 em 12 horas, revertendo a TSV. A dieta foi suspensa, sendo iniciada hidratação venosa.




Após 46 horas de vida, apresentou novos episódios de TSV. O primeiro revertido com manobra vagal e os subsequentes revertidos com amiodarona venosa, infundida inicialmente com velocidade de 10mg/kg/hora, e depois para 20mg/kg/hora.

Na manhã do terceiro dia de vida, apresentou TSV com a FC chegando a 300 bpm, durando cerca de 1 hora, mesmo após manobra vagal (colocação de compressa de gelo), associada à cianose de extremidades. À noite, apresentou TSV em mais dois momentos. Ambos foram controlados após alguns minutos, com manobra vagal.

No quarto dia de vida, o RN não apresentou novos episódios de TSV, e a dieta foi retomada por sonda gástrica, com fórmula láctea infantil. No dia seguinte, foi associado o propranolol, com 2mg/kg/dia, por via oral, e a dieta foi progredida.

No sexto dia de vida houve episódios de vômitos e com isso a amiodarona foi suspensa, permanecendo apenas o propranolol. Realizado um ecocardiograma transtorácico, que evidenciou forame oval patente e sinais indiretos de hipertensão arterial pulmonar leve e função sistólica biventricular preservada.

Após 12 dias internado, o RN recebeu alta com prescrição de propranolol e vitamina D, alimentando-se exclusivamente em seio materno, sendo orientado a acompanhamento ambulatorial. O ecocardiograma realizado no dia da alta demonstrou forame oval ainda patente, função sistólica biventricular normal e sem sinais de HAP.

O RN realizou os testes de triagem neonatal que não apresentaram alterações. Durante a internação, foram realizados exames de gasometria, hemograma, ionograma, avaliação das funções renal e hepática, além de ultrassonografias transfontanela e abdominal, sem demonstrar quaisquer alterações.

O RN segue em acompanhamento ambulatorial com a Cardiologia pediátrica e a Ortopedia, com manutenção do propranolol e necessidade de uso de órtese bilateral nos dedos.


DISCUSSÃO

Neonatos com frequência cardíaca acima de 180 BPM podem apresentar comprometimento hemodinâmico, configurando uma emergência médica3. A TSV compreende um conjunto de taquiarritmias originadas antes do Feixe de His1,6.O restabelecimento do ritmo cardíaco normal e a estabilização hemodinâmica são os principais objetivos inicialmente. Após estabilização clínica, torna-se valioso confirmar o tipo específico de taquiarritmia supraventricular com base na análise do eletrocardiograma de superfície6  registrado durante e após a resolução da arritmia. Neste caso a análise identificou uma taquicardia supraventricular.

A taquicardia supraventricular (TSV) pode ser definida como uma anormalidade de frequência cardíaca que se origina acima dos ventrículos, geralmente (mas não sempre) com estreitamento de intervalo QRS e excluindo-se dessa definição o flutter e a fibrilação atrial.

A literatura descreve como fatores de risco a doença cardíaca congênita, os distúrbios eletrolíticos, a sépsis e a colocação de cateteres venosos centrais3.

O manejo clínico dos recém-nascidos com TSV pode ser desafiador porque o exato mecanismo da taquiarritmia na maioria das vezes é desconhecido. A TSV pode se apresentar intraútero ou em recém-nascidos4.Com o desenvolvimento das técnicas modernas de ecocardiografia fetal, tem se tornando muito mais frequente o diagnóstico das arritmias fetais sustentadas3. No caso relatado, não foi identificada alteração no ecocardiograma intraútero realizado no pré-natal.

A clínica do paciente, apesar de inespecífica, pode se manifestar com: palidez, cianose, irritabilidade, diaforese, taquipneia, dificuldades na alimentação ou palpitação1,4.

O tratamento da TSV neonatal considera o envolvimento fisiopatológico do nó átrio ventricular e é estabelecido de forma distinta para a fase aguda e de manutenção1,3,5. Na abordagem aguda, têm-se como objetivo restaurar o ritmo sinusal5. Dentre as disponibilidades, é preferível o uso da manobra vagal em casos estáveis, enquanto a cardioversão (CV) é restrita a pacientes que estão hemodinamicamente comprometidos ou apresentam sinais de insuficiência cardíaca1-4,6. Manobra vagal que se utiliza de rotina nas UTIs Neonatais consiste na aplicação sobre a face do RN de bolsa com água e gelo, simulando o "reflexo do mergulho". Evita-se como manobra vagal a compressão ocular e/ou massagem do seio carotídeo por serem danosos ao RN.

No caso abordado, utilizou-se a manobra vagal e a amiodarona. A literatura recomenda uso da adenosina como alternativa à falha da manobra vagal. Seu uso deve ser em infusão rápida, em um acesso venoso adequado e mais próximo possível ao coração. O uso da adenosina também auxilia o diagnóstico da TSV quando se realiza um ECG simultâneo à sua administração6. Para a terapia medicamentosa de manutenção, preconiza-se o uso de antiarrítmicos, como o betabloqueador não seletivo propranolol ou a digoxina como escolhas de primeira linha1-3,5. A digoxina deve ser evitada em casos suspeitos de síndrome de pré-excitação como Wolff-Parkinson-White2,3. Os estudos destacam que, nos casos de TSV refratária, a cardioversão não oferece benefícios, sendo necessário o uso de antiarrítmicos para manter o ritmo sinusal ou ablação por radiofrequência para tratamento definitivo4,6.

Para detectar anomalias cardíacas estruturais congênitas e alterações na função ventricular, o acompanhamento de neonatos com TSV requer ecocardiograma transtorácico de rotina1,3. No caso descrito, o primeiro exame de imagem realizado evidenciou apenas sinais indiretos de hipertensão arterial pulmonar leve não relacionados à arritmia. Nos exames subsequentes, a alteração não foi mais detectada.

A literatura sugere que o manejo correto da TSV neonatal reduz ocorrência de complicações e desfechos fatais. Na maioria dos casos ocorre resolução espontânea no primeiro ano de vida1,2,4,6.

No presente caso, o recém-nascido apresentou camptodactilia bilateral com histórico familiar das mesmas condições, sugerindo uma possível herança autossômica dominante7,8. Foi recomendado o uso de órtese, sendo o tratamento cirúrgico reservado para casos mais graves9.

A manifestação conjunta de TSV e camptodactilia não foi encontrada em descrições na literatura em revisão bibliográfica feita pelos autores e, muito provavelmente, pode ter sido apenas fortuita.


CONCLUSÃO

A Taquicardia Supraventricular continua sendo um desafio clínico para neonatologistas e cardiologistas pediátricos quanto ao seu correto manuseio na fase aguda, também chamada de fase de conversão para ritmo sinusal normal; bem como em sua fase de manutenção\prevenção de novos episódios. A estabilidade hemodinâmica é o mais importante para a escolha de tratamento. A associação de malformações outras que não cardíacas parece ter sido apenas casual e carece de estudos semelhantes na literatura. Os serviços de neonatologia devem estar equipados adequadamente bem como dispor de cardiologistas pediátricos para orientações nesses casos. O prognóstico depende da presença de malformações estruturais cardíacas concomitantes e resposta inicial ao tratamento. O acompanhamento cardiológico é fundamental para elucidação do mecanismo fisiopatológico envolvido bem como terapia definitiva especializada como a ablação por radiofrequência.


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1. Hospital Universitário Antonio Pedro - Universidade Federal Fluminense, Departamento Materno-Infantil e Departamento de Patologia - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
2. Hospital Universitário Antonio Pedro - Universidade Federal Fluminense, Departamento Materno-Infantil - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
3.Universidade Federal Fluminense - UFF, Faculdade de Medicina - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil

Endereço para correspondência:

Rinaldo Fábio Souza Tavares
Hospital Universitário Antonio Pedro.
Avenida Marquês do Paraná, 303, Niterói,
Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP: 24033-900.
E-mail: rinaldotavares@id.uff.br

Data de Submissão: 11/12/2024
Data de Aprovação: 18/02/2025

Sobre os autores

1 Hospital Universitário Antonio Pedro - Universidade Federal Fluminense, Departamento Materno-Infantil e Departamento de Patologia - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

2 Hospital Universitário Antonio Pedro - Universidade Federal Fluminense, Departamento Materno-Infantil - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

3 Hospital Universitário Antonio Pedro - Universidade Federal Fluminense, Departamento Materno-Infantil e Departamento de Patologia - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

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Como citar este artigo:

Tavares, RFS, Latge, DK, Ferreira, KAR, Ribeiro, LO, Neves, JMS, Peres, MN, Soletti, J, Jesus, WS. Supraventricular Tachycardia in a Newborn with Camptodactyly: Case Report. Resid Pediatr. 15(4):1-6. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n4-1380

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