Logo

ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

Powered by Google Translate

Relato de Caso

VISUALIZAÇÕES

Total: 65

Esclerose tuberosa associada à taquicardia atrial de difícil controle como manifestação inicial em lactente: Relato de caso

Tuberous sclerosis associated with atrial tachycardia difficult-to-control as the initial manifestation in an infant: Case report

Marianne Fernanda de Melo Duarte1; Gessianni Claire Alves-de-Souza1; Fernanda Pessa Valente1; Ana Luiza Magalhães de Andrade Lima1; Fabiana Gomes Aragão Magalhães Feitosa1; Liliane Gomes da-Rocha1

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2026-1433 Residência Pediátrica, 16(1), 1-7

RESUMO

Tumores cardíacos são entidades raras na pediatria. Podem ser neoplasias benignas ou malignas que surgem principalmente no revestimento interno, na camada muscular ou no pericárdio circundante do coração. Podem ser primários ou metastáticos. Além de raros, tumores primários têm alta chance de benignidade nessa população. O mixoma é o tumor cardíaco primário mais comum em adultos, entretanto, em crianças, os rabdomiomas são os mais frequentes. Uma vez diagnosticados, devem-se investigar outros sítios pela possibilidade de Esclerose Tuberosa. Esses tumores podem causar obstrução da valva ou da via de entrada e saída ventricular, tromboembolia, arritmias ou doenças pericárdicas. O diagnóstico é por ecocardiografia e frequentemente RM cardíaca. O tratamento dos tumores benignos geralmente é a ressecção cirúrgica; entretanto, sua recorrência é incomum. No caso apresentado, relata-se a associação desses dois tipos de tumores com a apresentação grave em uma lactente jovem: arritmia cardíaca.

Palavras-chave: Esclerose tuberosa; Mixoma; Arritmias cardíacas

Abstract

Heart tumors are rare entities in pediatrics. They can be benign or malignant neoplasms that arise mainly in the inner lining, muscular layer or surrounding pericardium of the heart. Furthermore, they can be primary or metastatic. In addition to being rare, primary tumors have a high chance of being benign in this population. Myxoma is the most common primary cardiac tumor in adults and rhabdomyomas are the most frequently found in children, even when suspected, other sites should be investigated for the possibility of tuberous sclerosis. These tumors can cause valve or inlet and outlet obstruction, thromboembolism, arrhythmias or pericardial diseases. Diagnosis is by echocardiography and often cardiac MRI. Treatment of benign tumors is usually surgical resection; however, recurrence is uncommon. In the case presented, we report an association of these two types of tumors with a severe presentation in a young infant: cardiac arrhythmia.

Keywords: Tuberous sclerosis; Myxoma; Arrhythmias; cardiac

INTRODUÇÃO

Tumores cardíacos são raros na pediatria, podem ser benignos ou malignos, primários ou metastáticos. O mixoma é o tumor cardíaco primário mais comum em adultos, sendo os rabdomiomas os mais frequentes em crianças. Uma vez diagnosticados, devem-se investigar outros sítios, pela possibilidade de Esclerose Tuberosa. Esses tumores podem causar obstrução da valva ou da via de entrada e saída ventricular, tromboembolia, arritmias ou doenças pericárdicas. O diagnóstico é por Ecocardiografia (ECO) e Ressonância magnética (RNM) cardíaca. O tratamento dos tumores benignos geralmente é a ressecção cirúrgica e sua recorrência é incomum. No presente estudo, descrevemos um caso de mixoma atrial em lactente, afecção rara em pediatria. A pesquisa obedeceu às orientações da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), sendo submetido ao CEP/IMIP (nº de Parecer 7.234.443 e CAAE 84099324.7.0000.5201).

 

RELATO DE CASO

Lactente de 1 ano e 8 meses apresentou quadro de tosse e dispneia por quatro dias, acompanhado de massa palpável no abdome, sem febre. A radiografia de tórax evidenciou cardiomegalia e congestão venocapilar, sendo iniciado tratamento com furosemida, resultando em melhora do quadro. A ultrassonografia abdominal evidenciou cistos renais.

Durante a evolução, apresentou taquicardia, com eletrocardiograma (ECG) sugestivo de taquicardia paroxística supraventricular (TPSV), provavelmente taquicardia atrial (TA). Foi administrada adenosina e amiodarona, sem sucesso. A paciente foi submetida à cardioversão elétrica (CVE), apresentando resposta inicial satisfatória, com retorno ao ritmo sinusal, mas evoluiu novamente com arritmia. O ECG após a CVE confirmou TA, sendo associado propranolol.

O ECO evidenciou uma tumoração no átrio direito (AD) e redução importante da função sistólica do ventrículo esquerdo (VE), com fração de ejeção (FE) de 35% (Figura 1 1). O Holter 24 horas registrou ritmo sinusal, permitindo o desmame da amiodarona venosa e a continuidade do tratamento da insuficiência cardíaca.

 

 

A RNM cardíaca revelou dilatação do AD e do VE, sugerindo taquicardiomiopatia, além de uma volumosa massa no AD, com hipótese diagnóstica de mixoma (Figura 2). A paciente foi submetida à ressecção cirúrgica sem intercorrências. O achado intraoperatóriao revelou uma tumoração encapsulada ocupando cerca de 60% do AD, aderida às paredes adjacentes, com secreção amarelada no interior. A análise histopatológica evidenciou infiltrado inflamatório misto, associado a histiócitos e necrose, correspondendo a mixoma degenerado.

 

 

ECO de controle após procedimento cirúrgico mostrou melhora progressiva da FE do VE (45,8%), sem indícios de tumoração residual. A paciente recebeu alta estável, com acompanhamento clínico ambulatorial. Posteriormente, iniciou quadro de crises epilépticas, com Eletroencefalograma sem alterações, porém Ressonância de crânio demonstrou túberes corticais e hamartomas (figura 3).

 

 

Dessa forma, com a evidência de rabdomiomas renais e cerebrais nos exames complementares de imagem, além do quadro de crises epilépticas, a paciente foi diagnosticada com Esclerose Tuberosa. Seguiu, portanto, acompanhamento ambulatorial com neurologia, nefrologia e cardiologia, sem intercorrências ou novos episódios de arritmia. O Holter 24 horas permaneceu normal, e o ECO com função sistólica do VE preservada, sem sinais de recidiva.

 

DISCUSSÃO

Os tumores cardíacos podem ser benignos ou malignos e se originam no revestimento interno, na camada muscular ou no pericárdio. Eles podem ser primários ou metastáticos1. Em crianças, os tumores cardíacos primários são raros, com incidência entre 0,027% e 0,08% em autópsias. Aproximadamente 82% a 90% desses tumores são benignos. Enquanto o mixoma é o tumor cardíaco primário mais comum em adultos, nas crianças predominam os rabdomiomas (50,7% dos casos benignos), seguidos pelos mixomas (21,5%)2.

A Esclerose Tuberosa (ET) é uma doença genética rara, que causa desregulação do crescimento celular, favorecendo o desenvolvimento de tumores benignos em diversos órgãos, incluindo cérebro, rins, coração, pele e pulmões. Entre os tumores cardíacos, a associação mais comum ocorre com os rabdomiomas3.

Os tumores cardíacos podem ser sintomáticos ou detectados incidentalmente durante exames para outros problemas. Em casos sintomáticos, a ecocardiografia, ressonância magnética e tomografia computadorizada costumam identificar a massa4, como ocorreu no caso relatado. Os rabdomiomas são geralmente múltiplos, localizam-se no septo ou na parede livre do VE, podendo comprometer o sistema de condução cardíaco e causar taquiarritmias e sintomas de insuficiência cardíaca5.

Os mixomas cardíacos passaram a ser diagnosticados com mais frequência devido à disseminação do uso da ecocardiografia. Geralmente, localizam-se no átrio esquerdo; a localização no AD, como no caso descrito, é incomum. A idade média de diagnóstico infantil é de 9 a 10 anos6. Mixomas tardios ou não diagnosticados podem causar complicações graves, incluindo embolização e obstrução cardíaca7. Cerca de 20% dos casos são assintomáticos, e 15% podem levar à morte súbita. Quando sintomáticos, podem gerar insuficiência cardíaca, arritmias e síncope8. Essas manifestações clínicas foram evidentes no caso relatado, com o diferencial da presença de taquicardia supraventricular.

Arritmias intratáveis, especialmente em crianças, devem levantar suspeita de tumor cardíaco. Nos mixomas, arritmias são incomuns, quando presentes, a taquicardia ventricular é a mais comum9. No caso relatado, vimos a presença de taquicardia atrial.

Diante de manifestações extracardíacas, como sintomas constitucionais (febre, perda de peso e artralgias), uma investigação detalhada com exames laboratoriais para pesquisa de anemia, trombocitopenia ou elevação de marcadores inflamatórios e, principalmente, exames de imagem, como a ecocardiografia, são fundamentais para o diagnóstico diferencial e planejamento cirúrgico10. A ressecção cirúrgica é o tratamento de escolha, podendo ser realizada por cirurgia aberta ou ressecção endoscópica. A terapia medicamentosa é indicada para complicações como insuficiência cardíaca congestiva e arritmias8,11. A esternotomia mediana foi o procedimento realizado no caso relatado.

A ressecção cuidadosa do mixoma reduz o risco de recorrência, que ocorre em menos de 5% dos casos. O acompanhamento ecocardiográfico regular é essencial para monitoramento10,12.

A associação entre mixoma atrial e Esclerose Tuberosa é extremamente rara, havendo apenas um relato na literatura, de 1976, sobre mixoma e múltiplos hamartomas em uma mulher adulta sem diagnóstico de ET. Assim, consideramos esse caso inédito na literatura.

 

CONCLUSÃO

Os tumores cardíacos primários na população pediátrica são eventos raros, e sua apresentação clínica pode variar amplamente, desde achados assintomáticos até manifestações graves, como insuficiência cardíaca e arritmias complexas.

O presente relato descreve um caso incomum de associação entre Esclerose Tuberosa e Mixoma atrial, destacando a importância do reconhecimento e manejo precoce dessas neoplasias no contexto de distúrbios do ritmo cardíaco, com implicações no prognóstico. A raridade dessa associação reforça a relevância desse caso para a ampliação do conhecimento, além de reforçar a importância de uma avaliação sistemática para a identificação de doenças genéticas subjacentes.

 

REFERÊNCIAS

1. Uzun O, Wilson DG, Vujanic GM, Parsons JM, De Giovanni JV. Cardiac tumours in children. Orphanet J Rare Dis. 2007 Mar 1;2(1):11. DOI: http://www.doi.org/10.1186/1750-1172-2-11

2. Tzani A, Doulamis IP, Mylonas KS, Avgerinos DV, Nasioudis D. Cardiac tumors in pediatric patients: a systematic review. World J Pediatr Congenit Heart Surg. 2017 Sep;8(5):624-32. DOI: http://www.doi.org/10.1177/2150135117723904

3. De Waele L, Lagae L, Mekahli D. Tuberous sclerosis complex: the past and the future. Pediatr Nephrol. 2015 Oct;30(10):1771-80. DOI: http://www.doi.org/10.1007/s00467-014-3027-9

4. Mankad R, Herrmann J. Cardiac tumors: echo assessment. Echo Res Pract [Internet]. 2016 Dec;3(4):R65-77. DOI: http://www.doi.org/10.1530/ERP-16-0035

5. Penha JG, Zorzanelli L, Barbosa-Lopes AA, Aiello VD, Carvalho VO, Caneo LF, et al. Heart neoplasms in children: retrospective analysis. Arq Bras Cardiol. 2013 Feb;100(2):120-6. DOI: http://www.doi.org/10.5935/abc.20130024

6. Shi L, Wu L, Fang H, Han B, Yang J, Ma X, et al. Identification and clinical course of 166 pediatric cardiac tumors. Eur J Pediatr. 2017 Feb;176(2):253-60. DOI: http://www.doi.org/10.1007/s00431-016-2833-4

7. Animasahun AB, Kushimo OY, Fajuyile FA, Njokanma OF. Atrial myxoma in 2 Nigerian children. World J Pediatr Congenit Heart Surg. 2010 Sep;1(3):397-9. DOI: http://www.doi.org/10.1177/2150135110381390

8. Onubogu U, West B, Orupabo-Oyan B. Atrial myxoma: a rare cause of hemiplegia in children. Cardiovasc J Afr. 2017 Sep/Oct;28(5):e1-3. DOI: http://www.doi.org/10.5830/CVJA-2016-093

9. Jayaprakash S. Clinical presentations, diagnosis, and management of arrhythmias associated with cardiac tumors. J Arrhythm. 2018 Aug;34(4):384-93. DOI: http://www.doi.org/10.1002/joa3.12030

10. Lone RA, Ahanger AG, Singh S, Mehmood W, Shah S, Lone G, et al. Atrial myxoma: trends in management. Int J Health Sci (Qassim) [Internet]. 2008 Jul;2(2):141-6.

11. Noori NM, Shafighi Shahri E, Mousavi S. Left atrial myxoma: a rare tumor in a child. J Pediatr Perspect [Internet]. 2020 Mar; [cited 2025 Apr 7]; 8(3):11071-5. Available from: https://jpp.mums.ac.ir/mobile/article_14166.html

12. Tolu-Akinnawo O, Dufera RR, Ramanna N. Recurrent left atrial myxoma: the significance of active surveillance. Cureus. 2023 Jan;15(1):e33990. DOI: http://www.doi.org/10.7759/cureus.33990

13. Kaneko H, Murohashi T, Katano A, Hojo H, Ishikawa S. Atrial myxoma associated with multiple hamartomas. Acta Pathol Jpn. 1976 Sep;26(5):603-10. DOI: http://www.doi.org/10.1111/j.1440-1827.1976.tb00517.x

 

 

Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - IMIP, Serviço de Cardiologia Pediátrica - Recife - Pernambuco - Brasil

Endereço para correspondência:
Marianne Fernanda de Melo Duarte
Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira – IMIP
R. dos Coelhos, 300 - Boa Vista
Recife - PE, 50070-902
E-mail: marianne.fmd@gmail.com

Data de Submissão: 11/02/2025 
Data de Aprovação: 28/04/2025

Sobre os autores

1 Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - IMIP, Serviço de Cardiologia Pediátrica - Recife - Pernambuco - Brasil.

Métricas do Artigo

58

Visualizações HTML

7

Downloads PDF

Altmetric

Dimension

PlumX

Open Access

Como citar este artigo:

Duarte, MFM, Alves-de-Souza, GC, Valente, FP, Lima, ALMA, Feitosa, FGAM, da-Rocha, LG. Esclerose tuberosa associada à taquicardia atrial de difícil controle como manifestação inicial em lactente: Relato de caso. Resid Pediatr. 16(1):1-7. DOI: 10.25060/residpediatr-2026-1433

Logo

Todos os artigos publicados pela revista Residência Pediátrica utilizam a Licença Creative Commons