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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Diagnóstico diferencial de dor abdominal: Neuroblastoma de adrenal em paciente pediátrico: Relato de caso

Differential diagnosis of abdominal pain: Adrenal neuroblastoma in a pediatric patient: Case report

Maria Ururahy Póvoa Duarte Villela1; Katia Farias e Silva1

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2026-1440 Residência Pediátrica, 16(1), 1-3

RESUMO

A dor abdominal em crianças é uma queixa comum, com diversas causas possíveis, que vão desde condições benignas até doenças graves. O objetivo deste relato de caso é descrever o quadro de um paciente de oito anos que teve diagnóstico de neuroblastoma de adrenal após diversas idas a emergências, tendo, no início do quadro, apenas queixa de dor abdominal. Para o diagnóstico, obteve-se auxílio de exames complementares de imagem, feito meses após início dos sintomas, e foi descoberto que o paciente já havia metástase para coluna. Atualmente, em acompanhamento com serviço especializado em oncologia pediátrica para quimioterapia e definição de tratamento.

Palavras-chave: Neuroblastoma; Dor abdominal; Criança

Abstract

Abdominal pain in children is a common complaint, with several possible causes, ranging from benign conditions to serious diseases. The objective of this case report is to describe the condition of an eight-year-old patient who was diagnosed with adrenal neuroblastoma after several visits to the emergency room, initially complaining only of abdominal pain. For the diagnosis, complementary imaging tests were obtained, carried out months after the onset of symptoms, and it was discovered that the patient had already metastasized to the spine. Currently being monitored by a specialized pediatric oncology service for chemotherapy and treatment definition.

Keywords: Neuroblastoma; Abdominal pain; Child

INTRODUÇÃO

A dor abdominal em crianças é uma queixa comum e pode ter múltiplas causas, desde condições benignas até doenças graves. Quando acompanhada de sinais sistêmicos, como febre, linfadenopatia e piora progressiva do quadro clínico, torna-se crucial considerar causas raras e graves, como neoplasias malignas da glândula suprarrenal. No Brasil, o percentual médio de tumores em população pediátrica (0-19 anos) foi de 3%, sendo o neuroblastoma o tumor sólido maligno mais comum nessa população1.

Este relato descreve o caso de um paciente pediátrico com quadro clínico complexo que, após investigação minuciosa, teve o diagnóstico de neoplasia maligna de glândula suprarrenal confirmado.

 

 

RELATO DE CASO

Paciente, sexo masculino, 6 anos, morador do Rio de Janeiro, procurou atendimento médico devido à dor persistente no quadrante inferior do abdômen e membro inferior direito, que durava mais de 9 meses. Inicialmente, foi feito o diagnóstico de febre reumática, por meio de resultados laboratoriais, sendo eles: ASLO 347 UI/ml e VHS 28 mm/h e queixa de amigdalites de repetição. Com isso, foi proposto o tratamento com três doses de penicilina benzatina, sem melhora do quadro. Nos últimos 3 meses, apresentou piora do quadro associado a náuseas, vômitos, artralgia, claudicação do membro inferior direito. O paciente buscou novo atendimento em um hospital de grande porte, sendo então internado para investigação diagnóstica.

Durante a internação, foram realizados exames de imagem e laboratoriais para elucidação da causa da dor abdominal e dos novos sintomas como constipação intestinal. A tomografia de abdômen revelou "sinais de linfonodomegalias, mais especificamente um aglomerado linfonodal no abdômen superior, com alguns linfonodos calcificados, sugerindo a possibilidade de doença granulomatosa extrapulmonar ou imunossupressão". Não foram observadas alterações significativas na cavidade peritoneal.

Foi realizada radiografia de tórax e ecocardiograma, que não evidenciaram alterações, e exames laboratoriais que indicaram aumento progressivo de PCR e VHS, além de anemia microcítica. As sorologias para TORCHs foram negativas.

Dados a persistência dos sintomas e os achados de linfonodomegalia mesentérica intra-abdominal e calcificações na tomografia de abdômen, além de novos sintomas sistêmicos, como dor à compressão de corpos vertebrais e constipação, foi realizada uma tomografia de abdômen, coluna torácica e lombar com contraste. A tomografia evidenciou uma grande massa na topografia da adrenal esquerda (Figura 1), de densidade heterogênea, com múltiplos focos de calcificação e áreas centrais de necrose, além de linfonodomegalias no retroperitônio e lesões ósseas sugestivas de envolvimento metastático (esclerose no corpo vertebral D11 e lesão lítica no D12).

 

 

Com esses achados, o paciente foi então encaminhado para o serviço especializado de oncologia pediátrica, realizada uma biópsia de medula óssea, que confirmou o diagnóstico de neoplasia maligna de glândula suprarrenal.

 

DISCUSSÃO

A neoplasia maligna de glândula suprarrenal é rara na infância, sendo os carcinomas adrenocorticais os tumores mais comuns dessa localização2. Ainda assim, o neuroblastoma é o tumor extracraniano de tecidos moles pediátricos mais comum, sendo responsável por aproximadamente 8% das malignidades infantis, e 49% estão localizados na glândula suprarrenal3.

O prognóstico é amplamente variável, desde regressão espontânea até doença fatal, apesar da terapia multimodal. Vários exames de imagem e clínicos são necessários para avaliar com precisão o risco do paciente, com grupos de risco baseados no estágio da doença, idade do paciente e fatores biológicos do tumor. Aproximadamente 60% dos pacientes com neuroblastoma apresentam doença metastática, envolvendo mais comumente medula óssea ou osso cortical, e isso impacta o prognóstico, sobrevida e manejo da doença3,4. É fundamental uma maior acurácia na estratificação de risco no momento do diagnóstico, levando em conta todos esses fatores clínicos, de imagem e achados cirúrgicos (quando a cirurgia for indicada), baseada em critérios internacionais — International Neuroblastoma Risk Group (INRG) — para um melhor manejo.

Além disso, o avanço em terapias com quimioterapia de altas doses, transplante de células-tronco autólogas, imunoterapia de precisão com anticorpos monoclonais antineuroblastoma e radiofármacos têm melhorado a sobrevida de 5 anos nos pacientes com doença metastática, de menos de 20% para mais de 50%5. A apresentação clínica pode ser insidiosa, com sintomas abdominais, dor lombar e sinais de hiperfunção hormonal, como síndrome de Cushing ou virilização, que podem dificultar o diagnóstico diferencial. O neuroblastoma pode apresentar uma gama de sintomas neurológicos não específicos e inexplicáveis, além de outras apresentações clínicas comuns, como erupção cutânea, constipação, diarreia e, até mesmo, distúrbios imunológicos em crianças previamente hígidas, como manifestação de síndrome paraneoplásica devido à presença de um tumor não diagnosticado6.

Este caso destaca a importância de uma investigação clínica e laboratorial aprofundada diante da queixa de dor abdominal persistente em crianças, principalmente quando os sintomas não melhoram com o tratamento inicial. A tomografia de abdômen com e sem contraste foi crucial para identificar a massa adrenal e as linfonodomegalias, e a biópsia confirmou o diagnóstico de neoplasia maligna.

Embora ainda não amplamente disponíveis no SUS, o uso do microRNA como biomarcador para diagnóstico e prognóstico, alvo terapêutico e fármacos têm sido discutidos, bem como o uso da cintilografia7,8.

O diagnóstico precoce de tumores adrenocorticais é fundamental, uma vez que o tratamento cirúrgico pode ser curativo nos casos iniciais9. No entanto, quando há metástases ou comprometimento de órgãos adjacentes, o tratamento oncológico, incluindo quimioterapia, é necessário, como no caso apresentado.

 

CONCLUSÃO

É importante considerar o diagnóstico de neoplasias malignas de glândula suprarrenal no contexto de dor abdominal e sintomas sistêmicos progressivos em crianças, principalmente quando a resposta aos tratamentos iniciais é insatisfatória. A investigação radiológica e a biópsia são fundamentais para a confirmação do diagnóstico e definição do tratamento10,11. O encaminhamento ao Serviço de Oncologia Pediátrica, avaliação de risco para definição da necessidade de cirurgia e/ou início de quimioterapia ou seguimento com conduta expectante são etapas cruciais para o tratamento e prognóstico do paciente.

 

REFERÊNCIAS

1. Camargo B de, Santos MO, Rebelo MS, Reis RS, Ferman S, Noronha CP, et al. Cancer incidence among children and adolescents in Brazil: first report of 14 population-based cancer registries. Int J Cancer. 2010 Jan 15;126(3):715-20. DOI: http://www.doi.org/10.1002/ijc.24867

2. Libé R, Huillard O. Cancer treatment and research communications. Cancer Treat Res Commun. 2023;37:100759. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.ctarc.2023.100759

3. Sharp SE, Gelfand MJ, Shulkin BL. Pediatrics: diagnosis of neuroblastoma. Semin Nucl Med. 2011 Sep;41(5):345-53. DOI: http://www.doi.org/10.1053/j.semnuclmed.2011.05.001

4. Lanza C, Galeazzi V, Carboni N, De Berardinis A, De Marino L, Barile A, et al. Neuroblastoma image-defined risk factors in adrenal neuroblastoma: role of radiologist. Gland Surg. 2019 Oct;8(Suppl 3):S168-77. DOI: http://www.doi.org/10.21037/gs.2019.06.01

5. Qiu B, Matthay KK. Advancing therapy for neuroblastoma. Nat Rev Clin Oncol. 2022 Aug;19(8):515-33. DOI: http://www.doi.org/10.1038/s41571-022-00643-z

6. Zhang YT, Feng LH, Zhang Z, Zhong XD, Chang J. Different kinds of paraneoplastic syndromes in childhood neuroblastoma. Iran J Pediatr. 2015 Feb;25(1):e266. DOI: http://www.doi.org/10.5812/ijp.266

7. Andreeva N, Usman N, Druy A. MicroRNAs as prospective biomarkers, therapeutic targets and pharmaceuticals in neuroblastoma. Mol Biol Rep. 2023 Feb;50(2):1895-912. DOI: http://www.doi.org/10.1007/s11033-022-08137-y

8. Aygun N. Biological and genetic features of neuroblastoma and their clinical importance. Curr Pediatr Rev. 2018;14(2):73-90. DOI: http://www.doi.org/10.2174/1573396314666180129101627

9. Cunha CF, Ribeiro RC, Maran AG. Pediatric adrenocortical tumors: a 30-year review. J Pediatr Surg. 2015 Jun;50(6):1112-8. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.jpedsurg.2015.03.007

10. Guo Y-K, Yang Z-G, Li Y, Deng Y-P, Ma E-S, Min P-Q, et al. Uncommon adrenal masses: CT and MRI features with histopathologic correlation. Eur J Radiol. 2007 May;62(3):359-70. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.ejrad.2006.12.009

11. Frazier AL, Shulkin BL. Pediatric adrenocortical carcinoma: a review of current diagnosis, treatment, and prognosis. Pediatr Blood Cancer. 2014 Apr;61(4):613-20. DOI: http://www.doi.org/10.1002/pbc.24828

 

 

Hospital Municipal Miguel Couto, Pediatria - Rio de janeiro - Rio de janeiro - Brasil

Endereço para correspondência: 
Maria Ururahy Póvoa Duarte Villela
Hospital Municipal Miguel Couto 
Rua Mario Ribeiro, 117 - Gávea
Rio de Janeiro - RJ, Brasil. CEP: 22430-160 
E-mail: mariaupdv@gmail.com

Data de Submissão: 17/02/2025
Data de Aprovação: 30/04/2025

Sobre os autores

1 Hospital Municipal Miguel Couto, Pediatria - Rio de janeiro - Rio de janeiro - Brasil.

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Como citar este artigo:

Villela, MUPD, Silva, KFE. Diagnóstico diferencial de dor abdominal: Neuroblastoma de adrenal em paciente pediátrico: Relato de caso. Resid Pediatr. 16(1):1-3. DOI: 10.25060/residpediatr-2026-1440

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