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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Atuação fisioterapêutica em pacientes pediátricos sob oxigenação por membrana extracorpórea

Physiotherapeutic Performance in Pediatric Patients Under Extracorporeal Membrane Oxygenation

Joyce Liberali Pekelman Rusu1; Mariana Pardini Morais1; Mariana Mazzuca Reimberg1; Anahid Feres Chahine1; Juliana Honorio Lopes1; Beatriz Brohem Moscatello1

RESUMO

Oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) é uma terapia invasiva que garante oferta de oxigênio adequada em quadros específicos. Esta pesquisa teve como objetivo identificar a atuação fisioterapêutica em pacientes neonatais e pediátricos durante a ECMO em unidade de terapia intensiva. Realizada revisão sistemática nas bases de dados SciELO, LILACS, PEDro e PubMed, com descritores “ECMO”, “Neonatal”, “Pediatric”, “Neonatology”, “Extracorporeal membrane oxygenation”, “Physical Therapy” e “Rehabilitation” individualmente e cruzados com operador booleano “AND”. Incluídos ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte, caso controle, transversais, diretrizes clínicas e relatos de caso publicados nos últimos quatorze anos, em português, inglês e espanhol, em pacientes pediátricos e excluídos aqueles que não se relacionam ao objetivo, revisões sistemáticas, de literatura e estudos duplicados. Encontraram-se 610 artigos no total, estando 12 de acordo com os critérios de seleção. Três estudos abordaram mobilização precoce, com duração de 10 a 60 minutos, observando acessos e canulações e metas de mobilidades específicas relacionadas à faixa etária e evolução do paciente, dentre os procedimentos respiratórios, aspiração foi a única técnica descrita, 9 artigos abordaram suporte ventilatório, sendo o modo pressão controlada mais utilizado, com PIP de 15 a 21cmH2O, PEEP de 5 a 14cmH2O, a FiO2 de 21 a 90%, em 3 artigos, frequência respiratória de 10 a 20rpm e volume corrente = 6mL/kg. A atuação fisioterapêutica consistiu em auxiliar no suporte ventilatório, prevenir complicações respiratórias e motoras, através de estratégias de mobilização precoce, ajuste dos parâmetros da ventilação mecânica e aspiração. Não houve conflito de interesse ou financiamento relacionado à pesquisa.

Palavras-chave: Oxigenação por membrana extracorpórea; Reabilitação; Pediatria; Modalidades de fisioterapia; Neonatologia; Unidades de Terapia Intensiva pediátrica

Abstract

Extracorporeal membrane oxygenation (ECMO) is an invasive therapy that ensures adequate oxygen supply in specific conditions. This study aimed to identify physiotherapeutic interventions in neonatal and pediatric patients undergoing ECMO in intensive care units. A systematic review was conducted using the SciELO, LILACS, PEDro, and PubMed databases with the descriptors “ECMO,” “Neonatal,” “Pediatric,” “Neonatology,” “Extracorporeal membrane oxygenation,” “Physical Therapy,” and “Rehabilitation,” both individually and combined using the Boolean operator “AND.” The inclusion criteria comprised randomized clinical trials, cohort, case-control, and cross-sectional studies, clinical guidelines, and case reports published in the last 14 years in Portuguese, English, or Spanish, involving pediatric patients. Articles that did not meet the objective, systematic or literature reviews, and duplicates were excluded. A total of 610 articles were initially found, with 12 meeting the selection criteria. Three studies addressed early mobilization (10 to 60 minutes), considering cannulation, age-specific goals, and patient progression. Aspiration was the only respiratory technique described. Nine studies discussed ventilatory support, with pressure-controlled ventilation being the most used mode. Reported parameters included PIP from 15 to 21 cmH²O, PEEP from 5 to 14 cmH²O, FiO² from 21% to 90%, respiratory rate between 10 and 20 breaths/min, and tidal volume =6 mL/kg. Physiotherapy during ECMO involved assisting in ventilatory support and preventing respiratory and motor complications through early mobilization strategies, ventilator setting adjustments, and aspiration. The authors declare no conflicts of interest. No funding was received to support this research.

Keywords: Extracorporeal membrane oxygenation; Rehabilitation; Pediatrics; Physical therapy modalities; Neonatology; Intensive Care Units; Pediatric

INTRODUÇÃO

A Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), também denominada Suporte de Vida Extracorpóreo (ECLS), é uma forma invasiva de circulação extracorpórea parcial utilizada para manter a oferta adequada de oxigênio em casos de insuficiência cardiopulmonar reversível que não responde às terapias convencionais1. O primeiro uso bem-sucedido da ECMO em crianças submetidas à cirurgia cardíaca foi relatado em 1970. Cinco anos depois, sua aplicação em neonatos com insuficiência respiratória grave foi descrita2.

O principal objetivo da ECMO é permitir repouso pulmonar e/ou cardíaco enquanto a condição subjacente se recupera. Durante o suporte extracorpóreo, o sangue é drenado por uma bomba externa, rotatória ou centrífuga, e passa por uma membrana de silicone ou polimetilpenteno para oxigenação e remoção de dióxido de carbono. Um trocador de calor mantém a temperatura sanguínea adequada antes da reinfusão na circulação do paciente3.

A canulação requer a colocação de cânulas de grosso calibre em grandes vasos e pode ser realizada em duas configurações. No modo venoarterial (VA), o sangue é drenado do átrio direito por meio de uma cânula inserida na veia jugular direita, veia femoral ou diretamente no átrio direito, e retornado à aorta por meio de uma cânula posicionada na artéria carótida direita, artéria femoral ou aorta. No modo venovenoso (VV), o sangue é drenado pelas aberturas posterior e inferior de uma cânula de duplo lúmen inserida na veia jugular direita e reinfundido no átrio direito pela abertura anterior direcionada à valva tricúspide. A configuração VV está associada à menor taxa de complicações2,3.

Por ser uma terapia altamente complexa e invasiva em populações neonatal e pediátrica, a ECMO é geralmente indicada para pacientes com risco estimado de mortalidade entre 50% e 100%3. De acordo com a Extracorporeal Life Support Organization (ELSO), as indicações em pacientes neonatais e pediátricos incluem insuficiência cardíaca grave com alto risco de mortalidade e etiologia potencialmente reversível, insuficiência respiratória grave com relação PaO₂/FiO₂ entre 60 e 80, e falha de resposta à ventilação mecânica otimizada4. As contraindicações incluem anomalias cromossômicas letais, lesão neurológica grave, sangramento não controlado, hemorragia intraventricular significativa, vasos inadequados para canulação, falência múltipla de órgãos, imunossupressão grave, insuficiência hepática terminal ou crônica e doença renal em estágio terminal4,5. As complicações mais frequentemente relatadas durante o suporte com ECMO incluem hemorragia relacionada à cânula, hemorragia pulmonar maciça, eventos neurológicos, infecção, isquemia e insuficiência renal6-8.

A exposição prolongada ao ambiente de terapia intensiva e as complicações associadas à oxigenação por membrana extracorpórea podem afetar o desenvolvimento neonatal e pediátrico. A imobilização prolongada e o manuseio frequente podem contribuir para atraso no desenvolvimento motor, redução da massa óssea e estimulação excessiva dos sistemas visual e auditivo, potencialmente aumentando os níveis de estresse e a morbidade9,10.

As intervenções fisioterapêuticas em unidades de terapia intensiva neonatal e pediátrica têm como objetivo prevenir ou minimizar comprometimentos motores e respiratórios associados a alterações da função pulmonar, da mecânica respiratória, da capacidade funcional e da saúde musculoesquelética. Essas intervenções também podem influenciar o tempo de internação hospitalar e os custos em saúde11,12.

 

OBJETIVO

Esta revisão sistemática tem como objetivo identificar as intervenções fisioterapêuticas realizadas em pacientes neonatais e pediátricos submetidos à Oxigenação por Membrana Extracorpórea em unidades de terapia intensiva.

 

MÉTODOS

Esta revisão sistemática foi conduzida em cinco etapas: formulação da pergunta de pesquisa, busca nas bases de dados, triagem e seleção independente dos estudos por dois revisores, avaliação da qualidade metodológica e síntese dos resultados. A pergunta de pesquisa foi estruturada de acordo com a estratégia PICO e definida da seguinte forma: “Quais intervenções fisioterapêuticas, abordando aspectos motores e respiratórios, são realizadas em pacientes neonatais e pediátricos submetidos à Oxigenação por Membrana Extracorpórea em unidade de terapia intensiva?”

A busca na literatura foi realizada entre janeiro de 2020 e novembro de 2024 nas bases eletrônicas SciELO, LILACS, PEDro e PubMed. A estratégia de busca incluiu os descritores “Extracorporeal Membrane Oxygenation”, “ECMO”, “Pediatric”, “Neonatal”, “Neonatology”, “Physical Therapy” e “Rehabilitation”, em português e inglês, de acordo com os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por meio do operador booleano “AND”, conforme apresentado na Tabela 1.

 

 

Os estudos elegíveis incluíram ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte, estudos caso-controle, estudos transversais, diretrizes clínicas e relatos de caso publicados em periódicos indexados em português, inglês ou espanhol. Foram considerados estudos envolvendo pacientes neonatais e pediátricos, independentemente do diagnóstico de base, tempo de internação ou duração do suporte com ECMO. Os critérios de exclusão compreenderam estudos não alinhados ao objetivo da revisão, revisões sistemáticas ou narrativas, publicações duplicadas e artigos publicados há mais de 14 anos em relação à data da busca.

 

RESULTADOS

De acordo com os métodos, foram recuperados 883 estudos nas bases de dados eletrônicas, dos quais 871 não atenderam aos critérios de seleção, restando 12 artigos selecionados para esta revisão sistemática, conforme detalhado na Figura 1.

 

 

A estratégia de busca adotada para a pesquisa na literatura, conforme descrita na Tabela 1, mostra o número de artigos recuperados em cada base de dados eletrônica de acordo com os descritores gerais utilizados, totalizando 883 estudos: 291 da LILACS, 516 da PubMed e 76 da SciELO.

Entre os doze artigos científicos selecionados, nove abordaram o suporte ventilatório, enquanto três enfocaram intervenções motoras em pacientes pediátricos e neonatais, conforme descrito na Tabela 2.

 

 

DISCUSSÃO

Observou-se que as principais intervenções fisioterapêuticas em pacientes pediátricos são mobilizações e estimulação do desenvolvimento, que devem ser realizadas o mais precocemente possível, com objetivos terapêuticos adaptados à idade do paciente. Em relação aos cuidados respiratórios, os procedimentos descritos incluíram aspiração e suporte ventilatório com ajustes dos parâmetros do ventilador mecânico. A estratégia ventilatória protetora foi a mais frequentemente mencionada, enfatizando o uso de baixos volumes correntes, que devem ser sempre individualizados para cada paciente.

A fisioterapia respiratória é indicada para pacientes submetidos à ECMO em todas as faixas etárias, principalmente devido à necessidade de suporte ventilatório e ao risco de colapso pulmonar. A estratégia de ventilação mecânica protetora foi a mais frequentemente relatada, utilizando baixos volumes correntes (≤6ml/kg), valores de PEEP variando de 6–10cmH₂O, PIP dentro dos limites normais (≤21cmH₂O) e baixos níveis de FiO₂ (<0,4)4,7,8,13-15. Dois estudos mencionaram parâmetros como PEEP, PIP, MAP e FiO₂, mas sem especificação clara dos parâmetros para cada população16,17. Um estudo destacou a aspiração como principal procedimento para remoção de secreções, com o objetivo de melhorar a relação ventilação-perfusão, enfatizando que sua aplicação deve considerar o estado hemodinâmico do paciente7. A escassez de informações sobre parâmetros e critérios para desmame da ventilação mecânica em pacientes em ECMO foi identificada como uma limitação nos estudos selecionados. Apenas um estudo mencionou o desmame inicial da ECMO, seguido pelo desmame da ventilação mecânica, sendo o modo de ventilação espontânea (PS) o mais comumente utilizado18. Em relação às técnicas de higiene brônquica e reexpansão pulmonar aplicadas a pacientes adultos em ECMO, ainda não há publicações que abordem essas intervenções nas populações pediátrica e neonatal11.

A fisioterapia motora foi abordada em três estudos, que concluíram que os programas fisioterapêuticos devem estabelecer metas específicas de mobilidade, levando em consideração a estabilidade hemodinâmica e a idade do paciente, com progressão do tratamento conforme melhora da condição clínica da criança10,14,19. Nenhum estudo relatou contraindicações à mobilização em pacientes em ECMO; entretanto, a fisioterapia motora deve ser realizada com segurança, adotando determinados critérios de contraindicação e protocolos para interrupção abrupta da terapia em casos de hipóxia, instabilidade hemodinâmica, ritmo cardíaco instável, oscilações da pressão intracraniana, instabilidade da canulação e queda da saturação de oxigênio12. Além disso, o monitoramento contínuo durante a terapia é essencial para prevenir complicações mecânicas do circuito de ECMO, como falha ou ruptura da cânula, mau funcionamento da bomba, falha do oxigenador ou do trocador de calor, ruptura do circuito, embolia gasosa e trombose. A vigilância constante da funcionalidade do sistema de ECMO é crucial para garantir a integridade do circuito5.

A implementação da terapia requer uma equipe multidisciplinar bem treinada, pois o manejo clínico é restrito e limitado por questões de segurança, especialmente devido ao alto risco de deslocamento da cânula14,21.

O uso da ECMO no Brasil é relativamente recente e ainda representa um recurso escasso, com alto custo inicial. No entanto, embora a aquisição do suporte extracorpóreo represente um investimento significativo, os custos diários associados ao seu uso não são substancialmente superiores aos de pacientes tratados exclusivamente com ventilação mecânica invasiva (VMI). Isso ocorre porque a combinação de ECMO e VMI tem sido associada à redução da mortalidade e do tempo de internação hospitalar, o que contribui para compensar o investimento nessa terapia22.

Embora o manejo ventilatório seja uma abordagem multiprofissional, no Brasil ele tem sido predominantemente inserido no escopo da prática fisioterapêutica. Por esse motivo, o manejo ventilatório, incluindo a descrição dos parâmetros ventilatórios, foi incluído neste estudo23,24.

Os achados desta pesquisa revelam uma limitação significativa na disponibilidade de estudos científicos de alta qualidade do ponto de vista metodológico sobre a atuação da fisioterapia nas populações pediátrica e neonatal. A ausência de estudos que abordem técnicas fisioterapêuticas em pacientes submetidos à ECMO dificulta a implementação de intervenções específicas e restringe o uso de terapias que poderiam oferecer efeitos benéficos, como a promoção do desenvolvimento típico e a melhora da função pulmonar25,26.

Além disso, no Brasil, uma proporção significativa de intensivistas pediátricos e neonatais apresenta conhecimento limitado sobre o uso da oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), particularmente em relação às suas indicações, manejo e complicações associadas. Isso evidencia a necessidade de estudos mais abrangentes e aprofundados para promover melhor compreensão e aplicação dessa tecnologia na prática clínica.

 

CONCLUSÃO

As intervenções fisioterapêuticas em pacientes submetidos à ECMO têm como principal objetivo oferecer suporte à função ventilatória e prevenir complicações pulmonares e motoras. As estratégias mais frequentemente relatadas incluem ajustes dos parâmetros da ventilação mecânica, aspiração de vias aéreas para garantir higiene brônquica e mobilização precoce.

No entanto, o corpo atual de evidências permanece limitado. Os poucos estudos disponíveis frequentemente apresentam baixa qualidade metodológica, o que limita a generalização de seus achados. Além disso, há uma escassez notável de pesquisas direcionadas especificamente às populações pediátrica e neonatal, grupos que apresentam características clínicas e fisiológicas distintas em comparação aos adultos e que, portanto, requerem abordagens fisioterapêuticas individualizadas.

Dessa forma, são necessários novos estudos de alta qualidade para aprofundar a compreensão do papel da fisioterapia em pacientes pediátricos e neonatais submetidos à ECMO. Tais investigações são essenciais para orientar práticas clínicas seguras, eficazes e baseadas em evidências para essa população altamente complexa e vulnerável.

 

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Data de Recebimento: 08/06/2025

Data de Revisão: 08/06/2025

Data de Aprovação: 08/09/2025

Data de Publicação: 01/07/2026

Sobre os autores

1 Centro Universitário São Camilo, Departamento de Fisioterapia - São Paulo - São Paulo - Brasil.

Endereço para correspondência

<p>Joyce Liberali Pekelman Rusu<br>
Centro Universitário São Camilo.<br>
Av. Nazaré, 1501 - Ipiranga, São Paulo - SP, 04263-200.<br>
E-mail: <a href="mailto:joyceliberali@hotmail.com">joyceliberali@hotmail.com</a></p>

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Como citar este artigo:

Rusu, JLP, Morais, MP, Reimberg, MM, Chahine, AF, Lopes, JH, Moscatello, BB. Atuação fisioterapêutica em pacientes pediátricos sob oxigenação por membrana extracorpórea. Resid Pediatr. 16(2):1-7. DOI: 10.25060/residpediatr-2026-1495

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