O SARS-CoV-2, vírus responsável pela COVID-19, tem provocado quadros infecciosos mais comumente leves em crianças e adolescentes, sendo rara a ocorrência de casos graves. No Brasil, a letalidade pela COVID-19 nesse público foi de 0,62% até março de 20211. Por outro lado, o aumento do tempo de tela diário - decorrente, sobretudo, de mudanças nas formas de ensino e lazer provocadas pela pandemia - somado ao aumento da inatividade física presente no período em questão pode influenciar diretamente no desenvolvimento cognitivo da criança2. Nesse contexto, estudos recentes demonstraram prejuízos estruturais à massa cerebral resultantes do uso excessivo de dispositivos digitais em crianças3. Além disso, tem sido mostrada uma relação entre o uso de telas e o agravamento de quadros pediátricos de ansiedade e depressão, bem como elevação das taxas de obesidade infantil4.
Para reduzir a disseminação do COVID-19, o isolamento social foi uma medida universalmente recomendada. Dessa forma, diversos governantes brasileiros publicaram documentos decretando o fechamento de praças públicas, centros esportivos, clubes e escolas, o que resultou em uma elevação significativa no sedentarismo infantil5. Logo, as crianças e adolescentes passaram a permanecer mais tempo sentadas em atividades ociosas, além de serem submetidas ao ensino acadêmico remoto que, majoritariamente, ocorreu de forma virtual2.
Várias evidências apontam que crises e desastres naturais podem aumentar casos de violência infantil, como demonstrado em um surto de ebola ocorrido na Libéria, onde houve aumento de agressões verbais e físicas pelos pais contra crianças e adolescentes6. Em outubro de 2020, a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alertava para o risco de aumento da violência doméstica contra crianças e orientava os profissionais de saúde para a importância de prevenção e coleta de dados sobre essa situação7. Nesse contexto, é válido estudar os efeitos da pandemia da COVID-19 na problemática da violência infantil. Ademais, os impactos imediatos do isolamento social no desenvolvimento infantil devem ser avaliados de modo a evidenciar possíveis prejuízos. Nesse sentido, o objetivo deste estudo é descrever os principais impactos da inatividade física, do aumento do tempo de tela e da violência infantil no desenvolvimento psíquico e cognitivo da população pediátrica favorecidos pelas mudanças de hábitos durante a pandemia da COVID-19.
MÉTODOS
O presente estudo trata-se de uma revisão narrativa de literatura. Para realização deste trabalho, foi realizada busca manual em periódicos, em publicações de órgãos nacionais e internacionais de grande impacto, entre os quais de destacam-se: Organização Mundial da Saúde, Sociedade Brasileira de Pediatria, e busca automática em bases de dados internacionais tais como: U.S National Library of Medicine (PubMed) e Scientific Eletronic Library Online (SciELO). Para a busca, foram utilizados os seguintes termos presentes no Descritores em Ciência de Saúde (DECS): “ChildBehavior”; “Screen time”; “Covid-19”; “Sedentary behavior” e “Domestic Violence”. Foram selecionadas 30 publicações, dentre elas estudos randomizados, revisões sistemáticas, estudos prospectivos e outras publicações dos órgãos supracitados, publicados entre os anos de 2018 e 2021.
Os critérios de inclusão utilizados como base foram trabalhos que estivessem no idioma inglês, português ou espanhol e possuíssem relevância ao estudo abordado. Os critérios de exclusão foram trabalhos em idiomas diferentes aos supracitados ou que não abordassem a temática em questão. A revisão e inclusão das publicações no estudo foi realizada por todos os autores, que concordaram na aceitação dos mesmos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os impactos do isolamento social repercutem em diversos âmbitos da esfera coletiva e individual. Todavia, essa problemática agravou-se ainda mais nos últimos três anos, haja vista o cenário resultante da pandemia da COVID-19, na qual o distanciamento social foi uma medida de controle indispensável8. Logo, mensurar os efeitos dessa realidade sobre crianças e adolescentes é uma tarefa complexa, uma vez que se trata de um período crítico para o desenvolvimento neuropsicomotor, especialmente nos primeiros anos de vida2,9.
Crianças e adolescentes que utilizam grande parte do tempo em aparelhos digitais costumam desenvolver ausência de foco e comprometimento de desempenho acadêmico, situação intensificada, em parte, pela pandemia da COVID-193,10. Nessa perspectiva, observou-se que o uso excessivo desses dispositivos está associado a uma diminuição da inteligência verbal e a um menor aumento na relação substância cinzenta/substância branca cerebral em crianças ao longo do tempo11. Ademais, foi evidenciado que o estilo de vida com maior tempo de tela para lazer trouxe repercussões estruturais encefálicas de modo a resultar em menor quantidade de substância cinzenta em seis regiões cerebrais diferentes3.
Em função disso, o significado clínico dessas modificações e a sua exata correlação com o uso de dispositivos eletrônicos têm sido alvo de uma série de estudos. Tais alterações podem causar defasagens funcionais em processos visuais, no estado de atenção, na memória verbal e até mesmo na velocidade de raciocínio do indivíduo12,13. Logo, é razoável especular que as consequências dessas alterações possam comprometer a capacidade cognitiva e o desempenho profissional do indivíduo em fases futuras da vida, o que torna necessário mais estudos que avaliem essa possível relação.
No que tange à esfera psíquica, o processo de isolamento social, a inatividade física intensificada por este e os efeitos inerentes ao uso excessivo de telas podem contribuir para desordens psiquiátricas, como ansiedade, depressão e uma série de outras, sobretudo em indivíduos que já possuem um distúrbio mental de base4,14-16. Além disso, a incerteza gerada pelo contexto pandêmico - especialmente pelo caráter abrupto com a qual se instalou - pode causar nas crianças e nos adolescentes sentimentos de raiva, irritabilidade e aborrecimento16.
Ademais, utilizando-se da subescala de compreensão verbal do Wechsler Intelligence Scale for Children (WISC) - que estima memória de trabalho, velocidade de processamento e raciocínio verbal e perceptivo - foi evidenciado que indivíduos com convívio social normal apresentaram pontuações mais altas aos 8 anos de idade comparadas a crianças em isolamento12,13. Somado a isso, vale reforçar que situações de isolamento durante a infância, especialmente em faixas etárias mais baixas, prejudicam o aprendizado de habilidades linguísticas, como como fala, leitura e escrita, o que compromete o desempenho escolar e o processo de socialização do indivíduo13.
No cenário pandêmico, foi demonstrado aumento expressivo do consumo de alimentos não saudáveis17,18. Desse modo, o impacto desses fatores sobre aspectos físicos, como sobrepeso e obesidade, é também uma preocupação importante5,19. Um estudo norte-americano demonstrou que as restrições impostas pela pandemia da COVID-19 fizeram com que muitas crianças e adolescentes não atingissem os respectivos níveis recomendados de atividade física20,21.
Segundo os pais, foi notório o aumento no comportamento sedentário dos filhos desde o início da pandemia, sendo questionado o potencial de tais mudanças se tornarem permanentes e, consequentemente, impactarem no estado de saúde futuro desses indivíduos20. Ainda, sabe-se que a inatividade física e o estresse, em parte intensificados pela pandemia em questão, são fatores que causam importante comprometimento do bem-estar psicossocial de crianças e adolescentes, o que pode acarretar prejuízos na saúde mental20,22. A partir disso, é preciso considerar as possíveis repercussões metabólicas e psíquicas resultantes do excesso de massa corporal e do sedentarismo23,24.
É indiscutível que os efeitos proporcionados pela COVID-19 têm sido catastróficos em níveis sociais, econômicos e políticos. Uma pesquisa concluiu que todas as formas de abuso infantil se tornam mais frequentes em épocas de férias, feriados e desastres naturais, ou seja, circunstâncias que obrigam crianças a passar mais tempo com seus familiares25. Logo, o distanciamento social decorrente da pandemia da COVID-19 apresentou-se como um fator associado ao aumento da violência infantil25,26.
O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) alerta que, em nosso país, 81% dos casos de violência infantil no primeiro semestre de 2021 ocorreram dentro do ambiente familiar causados por pais e cuidadores26. Desse modo, jovens e crianças que vivem com seus agressores estarão mais expostos à crueldade durante as medidas de isolamento social criadas para contenção da pandemia do novo coronavírus27-30. Vale destacar que muitos casos de violência contra crianças e adolescentes são identificados e notificados por profissionais do ambiente escolar, atitude prejudicada devido ao fechamento das escolas em razão de medidas protetivas contra a COVID-196. Nesse sentido, os profissionais de saúde, especialmente pediatras, devem estar atentos a esse risco e considerar todos os impactos negativos desse processo sobre a saúde física e mental da criança.
CONCLUSÃO
Conclui-se que o isolamento social inerente à pandemia da COVID-19 aumentou significativamente o tempo de tela e o sedentarismo por parte da população pediátrica, assim como o risco de violência infantil. Tais achados têm sido associados a diversos danos físicos, psicológicos e sociais. Além disso, foi evidenciado importante comprometimento cognitivo, especialmente no que se refere a raciocínio, memória de trabalho, processamento de informações, habilidades linguísticas e de socialização. Desse modo, são necessários mais estudos para investigar os efeitos dessas questões a longo prazo.
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1. Fundação Universidade de Itaúna, Medicina - Itaúna - Minas Gerais - Brasil
2. Centro Universitário de Belo Horizonte, Medicina - Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
Endereço para correspondência:
Rachel Pimentel Romano Silveira
Fundação Universidade de Itaúna
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E-mail: rachel.pimentel.romano@gmail.com
Data de Submissão: 15/12/2021
Data de Aprovação: 19/09/2022
Recebido em: 15/12/2021
Aceito em: 19/09/2022