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Hipertrigliceridemia grave numa criança com Diabetes Mellitus tipo 1 inaugural - o papel da plasmaferese terapêutica

Severe hypertriglyceridemia in a child with new onset type 1 Diabetes Mellitus - role of therapeutic plasmapheresis

Marta Veríssimo1; Carolina Gonçalves1; Francisca Galhardo Saraiva1; Maria Mendes1; Carlos Escobar1

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2023.v13n4-801 Residência Pediátrica, 13(4), 1-4

RESUMO

A hipertrigliceridemia grave pode constituir uma complicação da cetoacidose diabética mas é raramente descrita na populaçao pediátrica. O reconhecimento desta entidade é importante para uma abordagem adequada no sentido de prevenir as comorbilidades a ela associadas. Os autres relatam o caso de uma criança com 6 anos de idade com diabetes mellitus tipo 1 inaugural e que se apresentou com cetoacidose e hiperlipidemia. Para além do tratamento com insulina endovenosa, foi realizada plasmaferese para tratamento da hipertrigliceridemia. Pretendemos demonstrar a aplicabilidade desta técnica na presença de níveis muito elevados de triglicéridos no sangue como prevenção primária de complicações associadas à hipertrigliceridemia.

Palavras-chave: Hypertriglyceridemia, Diabetic Ketoacidosis, Diabetes Mellitus, Type 1, Plasmapheresis Pediatrics.

INTRODUÇÃO

A cetoacidose diabética (CAD) é uma apresentação comum do diabetes mellitus tipo 1 (DM1) caracterizada por hiperglicemia, acidose e cetonemia, que exige tratamento urgente1.

A insulina é necessária para a atividade da lipoproteína lipase (LPL), que hidrolisa e degrada os triglicérides transportados por quilomícrons e lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL). Portanto, discretas elevações na concentração lipídica sérica são comumente observadas na CAD. Hiperlipidemia grave raramente é relatada em casos de CAD pediátrica2,3.

O presente artigo descreve um caso pediátrico de diabetes recém-diagnosticada com hipertrigliceridemia grave tratada com plasmaferese.


RELATO DE CASO

Uma menina de 6 anos previamente hígida deu entrada no pronto-socorro com histórico de fadiga e letargia há uma semana. Foi relatada perda ponderal de 3kg apesar da ingestão normal de alimentos. Sem poliúria, polidipsia dor abdominal, vômitos ou história familiar de dislipidemia.

À internação: índice de massa corporal normal (percentil 10), pressão arterial 93/50 mmHg, frequência cardíaca 105 batimentos/min, frequência respiratória 18/min e temperatura corporal 36,6oC. Ao exame físico, as mucosas estavam secas e o tempo de enchimento capilar foi de dois segundos. Nada digno de nota foi identificado no restante do exame.

Os exames de sangue denotaram presença de soro lipêmico (Figura 1). A química sérica revelou hiperglicemia (643 mg/dL; intervalo de referência: 74-109 mg/dL), hipertrigliceridemia (5.369 mg/dL; intervalo de referência: < 150 mg/dL), hipercolesterolemia (colesterol total 699 mg/dL; intervalo de referência: < 170 mg/dL) , creatinina 0,81mg/dL (intervalo de referência: 0,32-0,59 mg/dL), BUN 25,6mg/dL (intervalo de referência: 15-36 mg/dL), sódio 126,7mmol/L (intervalo de referência: 135-145mmol/L), amilase 119 U/L (intervalo de referência 28-100U/L), hematócrito 39,7% (intervalo de referência: 35-45%), hemoglobina glicosilada 12,9% (intervalo de referência: 3,8-5,8%) e função tireoidiana normal. As enzimas hepáticas não puderam ser medidas devido à hipertrigliceridemia grave. O nível de cetona no sangue foi de 6,9 mmol/L. A gasometria venosa revelou acidose metabólica com pH 7,227, pCO2 28,6mmHg, HCO3- 11,6mmol/L, ânion gap 17,1 mEq/L.

Figura 1. Soro lipêmico



Após reposição volêmica adequada, a paciente iniciou infusão de insulina, mantendo jejum. O perfil lipídico 18 horas após a internação revelou hipertrigliceridemia grave e persistente (4.568mg/dL) e hipercolesterolemia (colesterol total 562mg/dL; HDL-colesterol 12mg/dL), com nível de amilase normal (77U/L). A paciente permaneceu assintomática. Ultrassonografia abdominal excluiu anomalias pancreáticas. Considerando os riscos associados à hipertrigliceridemia grave e à pancreatite, foi realizada plasmaferese de metade do volume plasmático através de cateter central (Equipamento: Spectra Optia® Apharesis System – Terumo BCT®; anticoagulação com citrato na proporção de 13:1, fluido de reposição com albumina humana a 5%). O tratamento foi bem tolerado e não produziu efeitos adversos. A Figura 2 mostra plasma lipêmico coletado na bolsa de efluente. O nível de triglicérides caiu para 1.058 mg/dL.

Figura 2. Bolsa de efluente durante plasmaferese



A resolução da CAD ocorreu após uma infusão de insulina de 16 horas. Foi feita a transição bem-sucedida para insulina subcutânea. Testes genéticos foram realizados para distúrbios do metabolismo lipídico e os resultados exibiram uma mutação no gene APOA5. A paciente recebeu alta no oitavo dia com nível de triglicérides de 463mg/dL. Após um mês e controle glicêmico adequado, os níveis de triglicérides chagaram a 115mg/dL.


DISCUSSÃO

Este caso destaca a ocorrência de hipertrigliceridemia no contexto de surgimento de DM1 e as implicações deste quadro clínico.

Pacientes recém-diagnosticados com DM1 e que apresentam CAD sofrem de deficiência absoluta de insulina, o que pode resultar em hiperlipidemia grave. Discretas elevações nas concentrações séricas de lípides são comuns em quadros de deficiência de insulina (30-50% dos casos de CAD3,4), mas a ocorrência de hipertrigliceridemia grave, definida como nível de triglicérides > 1000 mg/dL3, e plasma com aspecto leitoso é rara2-6. Esta combinação de achados se manifesta em 8-12,5% da população adulta com CAD, mas os dados sobre a população pediátrica são escassos3,6.

O mecanismo da hipertrigliceridemia na CAD envolve a deficiência de insulina, causando o aumento da mobilização de gordura pela ativação da lipólise e liberação de ácidos graxos livres. Tais ocorrências aceleram a formação de VLDL, que aliada à redução da atividade da LPL diminui a remoção de VLDL do plasma, resultando em hipertrigliceridemia1-6.

Vários autores defendem a tese de que variações genotípicas que afetam a LPL ou cofatores são o motivo pelo qual apenas algumas crianças diabéticas apresentam hiperlipidemia grave1. Mutações no gene APOA5, como a do nosso caso, foram descritas em associação com hipertrigliceridemia.7

O reconhecimento desta associação é importante, pois a hipertrigliceridemia grave pode complicar a CAD e levar ao desenvolvendo de pancreatite1. Pancreatite aguda ocorre em 2% das crianças e 11% dos adultos com CAD8.

O tratamento da hipertrigliceridemia inclui vários dias de insulina intravenosa e, em casos graves ou refratários, a plasmaferese surge como opção3.

Em uma revisão de literatura de pacientes pediátricos com CAD e hipertrigliceridemia, a maioria dos casos foi tratada apenas com insulina intravenosa. O tempo para normalização variou de três a 60 dias1-6. Apenas três casos pediátricos foram tratados com plasmaferese, dois com falência de órgãos e um com pancreatite aguda. O fracasso do tratamento conservador ministrado a uma menina de 10 anos com CAD, hipertrigliceridemia grave (16,334mg/dL), pancreatite aguda e insuficiência renal levou à prescrição bem-sucedida de plasmaferese9. Em outro caso, uma menina de 14 anos com CAD e hipertrigliceridemia grave exibiu piora grave da acidose metabólica, apesar de reidratação adequada e terapia com insulina. Plasmaferese por membrana foi tentada uma primeira vez sem sucesso, dado que o sangue lipêmico obstruiu o filtro de plasma. Em seguida, o método por centrifugação foi tentado com sucesso2. Um jovem de 16 anos com diabetes mellitus tipo 2 e hipertrigliceridemia grave (28.040 mg/dL), pancreatite aguda e CAD sofreu piora dos sintomas da pancreatite e aumento dos níveis de lipase apesar da instituição de tratamento com infusão de insulina e fluidos intravenosos. Posteriormente, duas sessões de plasmaferese foram realizadas com bons resultados10.

A plasmaferese, também conhecida como troca de plasma terapêutica (TPT), é um procedimento extracorpóreo no qual o plasma é separado dos componentes celulares do sangue, descartado e trocado por fluido de reposição. Pode ser realizada por meio de dois sistemas: membrana, baseado no tamanho molecular, e centrifugação, baseado na densidade molecular11. Uma comparação entre dispositivos de membrana e Spectra OptiaÒ Apheresis System de centrifugação identificou diversas vantagens com o uso do segundo, principalmente uma maior eficiência de remoção de plasma (27-53% x 80-93%) e necessidade de acesso vascular mais flexível (catéter de hemodiálise x catéter central agudo), com menos efeitos colaterais11.

A frequência e os tipos de complicações da aférese terapêutica dependem do estado geral do paciente e do número de procedimentos. Embora os princípios da TPT sejam os mesmos em adultos e crianças, existem diferenças técnicas, como menor volume sanguíneo total e dificuldades de acesso venoso. No entanto, diversas revisões sobre complicações relatadas sugerem que a incidência de complicações na TPT em adultos e crianças é semelhante (2,2-12%) e a maioria delas são leves. As complicações mais comuns relatadas num estudo em que foram incluídos 1.201 procedimentos foram prurido e urticária, seguidas de hipertensão e hipotensão. Outras possíveis complicações incluem reação anafilática, sepse/infecção bacteriana, reação transfusional febril não hemolítica, distúrbios hidroeletrolíticos e hemorragia12.

O uso bem-sucedido de plasmaferese foi descrito em pacientes com hipertrigliceridemia grave complicada por pancreatite aguda13,14. De acordo com as diretrizes da Sociedade Americana de Aférese, a pancreatite por hipertrigliceridemia é uma indicação de classe III para TPT, o que significa que o papel da aférese não está estabelecido e a tomada de decisão deve ser individualizada14. Dada a segurança da técnica, a plasmaferese tem sido utilizada na hipertrigliceridemia grave para prevenção de complicações com bons resultados. Alguns autores recomendam aférese em pacientes com triglicérides séricos > 1000mg/dL, independentemente da sintomatologia15. Entretanto, o uso da plasmaferese na prevenção primária das complicações da hipertrigliceridemia é limitado, devido à falta de disponibilidade e ao seu elevado custo11,15.

Nossa Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica realiza mais de cem procedimentos com o equipamento Spectra Optia®. De modo a obter uma redução rápida dos níveis de triglicérides da paciente descrita no presente artigo, realizamos TPT por centrifugação de metade do volume plasmático. O tratamento foi seguro, eficaz, bem tolerado e livre de complicações. O nível de triglicérides da paciente caiu em 70,35%.

Concluindo, não há diretrizes claras na literatura sobre o manejo de pacientes pediátricos com hipertrigliceridemia. Esse procedimento foi realizado em crianças com sinais de falência de órgãos e com manifestações iniciais de pancreatite aguda. Conseguimos mostrar que a TPT por centrifugação foi eficaz e segura em uma paciente com hipertrigliceridemia grave e risco aumentado de desenvolver complicações. Quando disponível, este método deve ser considerado para a prevenção primária de complicações.


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Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, EPE, Departamento da Criança e do Jovem - Amadora - Lisboa - Portugal

Endereço para correspondência:

Marta Veríssimo
Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca
IC19 276, 2720-276 Amadora, Portugal
E-mail: marta.bverissimo@gmail.com

Data de Submissão: 28/12/2021
Data de Aprovação: 27/03/2022

Recebido em: 28/12/2021

Aceito em: 27/03/2022

Sobre os autores

1 Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, EPE, Departamento da Criança e do Jovem - Amadora - Lisboa - Portugal.

Endereço para correspondência:

Marta Veríssimo

Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca IC19 276, 2720-276 Amadora, Portugal

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Como citar este artigo:

Veríssimo, M, Gonçalves, C, Saraiva, FG, Mendes, M, Escobar, C. Hipertrigliceridemia grave numa criança com Diabetes Mellitus tipo 1 inaugural - o papel da plasmaferese terapêutica. Resid Pediatr. 13(4):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2023.v13n4-801

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