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ISSN (On-line) 2236-6814

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Relato de Caso

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Síndrome de Emanuel em lactente: relato de caso

Emanuel syndrome in Infants: case report

João Batista Siqueira de Albuquerque Neto1; Marcelo José Duque Pacheco Filho1; Ana Alves de Oliveira Melo2; Camila Fonseca Leal de Araújo3; Gabriela Ferraz Leal3

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n2-1262 Residência Pediátrica, 15(2), 1-3

RESUMO

INTRODUÇÃO: A síndrome de Emanuel é uma doença genética rara, causada pela presença de um cromossomo supernumerário derivativo contendo material dos cromossomos 11 e 22. Este cromossomo supernumerário geralmente resulta de uma não disjunção meiótica 3:1 de uma translocação balanceada entre os cromossomos 11 e 22 presente em um dos genitores do indivíduo afetado. O quadro clínico inclui alterações ponderoestaturais, hipotonia persistente, dismorfias craniofaciais e prejuízo cognitivo. O diagnóstico pode ser feito por meio do cariótipo com bandas G de alta resolução e/ou CGH-array/SNP-array.
RELATO DE CASO: Este trabalho descreve o caso de uma criança de 11 meses de idade atendida em centro terciário para investigação de hipotonia global e atraso do desenvolvimento neuropsicomotor associados a apêndices pré-auriculares, epicanto e fenda palatina (já corrigida na ocasião da consulta). Foi realizado cariótipo, com resultado 47,XX,+mar e SNP-array, que evidenciou duplicações envolvendo os cromossomos 11 e 22, caracterizando a síndrome de Emanuel. No momento, segue sob cuidados da equipe multidisciplinar, com melhora nos marcos do neurodesenvolvimento. Genitores saudáveis.
CONCLUSÃO: As manifestações clínicas da síndrome de Emanuel são relativamente comuns na pediatria, sendo do interesse do pediatra geral identificar quando esses achados podem se correlacionar com uma síndrome genética. Essa pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética do serviço de acompanhamento e aprovada com o número: 76760623.9.0000.5201.

Palavras-chave: Aberrações cromossômicas, Cariótipo anormal, Translocação genética, Transtornos do neurodesenvolvimento.

INTRODUÇÃO

A síndrome de Emanuel (SE) é uma doença genética rara, causada pela presença de um cromossomo supernumerário derivativo contendo material dos cromossomos 11 e 22. Este cromossomo supernumerário geralmente resulta da não disjunção meiótica 3:1 de uma translocação balanceada entre os cromossomos 11 e 22 presente em um dos genitores do indivíduo afetado. Por essa razão, esta condição também é conhecida como síndrome do cromossomo supranumerário der(22)t(11;22)¹. Não se conhece com precisão a incidência e prevalência dessa síndrome, porém estima-se que ocorram dois casos a cada 100 mil nascimentos².

Geralmente, os pacientes apresentam baixo peso ao nascer, hipotonia generalizada e atraso do desenvolvimento neuropsicomotor. Há dificuldade em sugar e ingerir alimentos. Também é comum a doença do refluxo gastroesofágico, prejudicando ainda mais o ganho ponderoestatural. Cerca de metade dos pacientes nascem com fenda labial e/ou palatina². Quanto às alterações craniofaciais, são descritas microcefalia, fronte proeminente, orelhas dismórficas, apêndices pré-auriculares e alterações oculares. Cardiopatias congênitas, como a comunicação interatrial (CIA) e a comunicação interventricular (CIV), ocorrem em mais da metade dos casos³. Também se observa deficiência cognitiva. Geralmente, os afetados não desenvolvem linguagem falada, embora sejam capazes de expressar emoções e vontades com o corpo, voz e expressões faciais. São descritas ainda malformações cerebrais, como agenesia do corpo caloso, e alterações renais².

Os principais métodos diagnósticos são o cariótipo com bandas G de alta resolução, a análise cromossômica por Microarray e a análise de duplicação direcionada por hibridização in situ fluorescente⁴. O cariótipo evidencia a presença de um cromossomo marcador e a análise por Microarray constata duplicações de segmentos dos cromossomos 11 e 22, confirmando o diagnóstico⁵. Geralmente, um dos genitores apresenta uma translocação balanceada entre os cromossomos 11 e 22, sendo essa a translocação não-Robertsoniana mais comum em humanos. Os indivíduos com essa translocação geralmente são assintomáticos, porém podem ter filhos com cariótipo desbalanceado, graças a falhas na segregação meiótica¹.

Devido à ampla variedade de achados clínicos que caracterizam a SE, os pacientes devem dispor de acompanhamento multidisciplinar de forma precoce, buscando maximizar seu desenvolvimento e qualidade de vida⁴. Ainda que se trate de uma síndrome rara, alguns dos achados da SE, quando observados individualmente ou mesmo em conjunto, constituem queixas comuns no ambulatório de pediatria.

O objetivo deste artigo é relatar o caso de uma lactente atendida no ambulatório de pediatria geral em hospital terciário no Nordeste do Brasil para a investigação de atraso do neurodesenvolvimento e hipotonia, posteriormente diagnosticada com SE. Pesquisa submetida ao Comitê de Ética do serviço de acompanhamento e aprovada com o CAAE: 76760623.9.0000.5201.


RELATO DE CASO

Paciente do sexo feminino, com 11 meses de vida, comparece a ambulatório de pediatria geral em hospital terciário para investigação de hipotonia e atraso do desenvolvimento neuropsicomotor. Genitora referiu que a menor não possuía tônus cervical adequado, uma vez que a paciente tinha tendência à flexão cervical esquerda ou direita ainda aos 11 meses. Além disso, não apresentava os marcos do desenvolvimento esperado para a faixa etária: não se sentava sem apoio; segurou objetos durante consulta, porém não transferiu entre as mãos. Balbuciava, porém não formava sílabas. À inspeção, presença de epicanto à direita e apêndice pré-auricular à esquerda. Ao exame neurológico, foi observada hipotonia global com predomínio axial. Trofismo preservado. Não observado déficit de força às manobras. Reflexos normoativos e simétricos.

Antecedentes da paciente: foi uma recém-nascida pré-termo, idade gestacional de 36 semanas, escore de APGAR 9/9, peso ao nascer de 2655g, adequada para idade gestacional (p50), com perímetro cefálico de 31,5 cm (abaixo do esperado para idade) e comprimento de 47 cm, adequado para a paciente. Genitora com 38 anos, apresentou diabetes gestacional durante o pré-natal. Pais saudáveis e não consanguíneos. Sem irmãos. Sem antecedentes familiares com patologias importantes.

Ao exame físico do nascimento, foram observados fenda palatina (já estava corrigida na ocasião da consulta), microrretrognatia e cavalgamento de suturas frontoparietais. Trazia resultado de ecocardiograma, que evidenciou comunicação interatrial sem repercussão hemodinâmica e leve estreitamento em istmo aórtico. Realizada tomografia de crânio, que apontou ventrículos laterais discretamente assimétricos e aumento do espaço retrocerebelar.

Posteriormente, acrescentada ultrassonografia de coluna lombar com cóccix posteriorizado. Ultrassonografia de rins e vias urinárias do serviço não mostrou alterações. Iniciou investigação em conjunto com a Genética, com resultado de cariótipo 47, XX,+mar. Realizado em seguida SNP-array, o qual demonstrou duplicações envolvendo os cromossomos 11 e 22, caracterizando a síndrome de Emanuel.

Paciente permaneceu em seguimento com Pediatria Geral. Com 1 ano e 5 meses, paciente apresentava deficiência ponderoestatural, com perda de peso. Realizadas orientações e interrogado se o achado se atribuía a doença de base ou quadro infeccioso recente apresentado pela menor. Em consulta seguinte, seguiu com o quadro, saindo do escore Z 0 para próximo ao escore Z -2. Ampliado e intensificado o acompanhamento com equipe multidisciplinar envolvendo Pediatria Geral, Genética, Nutrição e Fisioterapia, tendo recuperado o crescimento e atingido alguns marcos do desenvolvimento: com 2 anos e 7 meses, possui pega em pinça, brinca com objetos, anda com apoio. Apresenta sorriso social, porém não desenvolveu fala, mantendo duplicação de sílabas até o momento.


DISCUSSÃO

Há poucas descrições desta síndrome na literatura devido à sua raridade. Achados fenotípicos podem variar e todos aqueles presentes na paciente estão descritos na literatura. Como não existe nenhum padrão específico de marcadores ultrassonográficos no pré-natal, o diagnóstico ocorre, em sua maioria, após o nascimento. Em análise retrospectiva, observou-se que cerca de 80,9% dos pacientes com diagnóstico da SE tinham alterações de sistema nervoso central na ultrassonografia¹.

A paciente do caso, apesar de não ter alterações detectadas no pré-natal, possuía achados em neuroimagem ao nascimento, o que ratifica o padrão trazido pelos estudos. Também em consonância com a literatura, havia sido evidenciada CIA em ecocardiograma da paciente, a qual já havia recebido alta da cardiologia no momento da consulta com a pediatria.

Por outro lado, alterações frequentemente descritas são a presença de hérnia diafragmática esquerda, defeitos renais e restrição de crescimento fetal, os quais a paciente não possuía¹. Posteriormente, a menor de fato apresentou dificuldade de ganho ponderoestatural persistente, não atribuível a intercorrências agudas, e solucionado após otimizar acompanhamento com equipe multidisciplinar, especialmente Nutrição.

A paciente do caso descrito foi, desde o nascimento, acompanhada por equipe multidisciplinar, o que possibilitou a abordagem conjunta de seus múltiplos achados clínicos. Além disso, após o diagnóstico, o acompanhamento em um serviço terciário tem possibilitado à paciente e aos familiares uma abordagem holística com ênfase em sua qualidade de vida.

Uma vez confirmado o diagnóstico, conhecer a doença e a sua variedade de repercussões clínicas é primordial para o acompanhamento multidisciplinar adequado. Até o momento, não se sabe de maneira clara a taxa precisa de mortalidade e o prognóstico da SE, entretanto, é sabido que muitos pacientes sobrevivem até a idade adulta quando bem acompanhados por uma equipe que promova assistência adequada¹.


CONCLUSÃO

As síndromes genéticas devem ser sempre lembradas pelo pediatra no diagnóstico diferencial de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor associado a malformações faciais e orgânicas. Apesar de rara, a SE é um diagnóstico possível, porém, por se tratar de um diagnóstico difícil, pode haver um atraso no início do tratamento e no acompanhamento multidisciplinar. Uma vez iniciado tal seguimento, podem ser notórias as melhorias no crescimento, desenvolvimento e qualidade de vida da criança.


REFERÊNCIAS

1. Xie CL, Cardenas AM. Neuroimaging findings in Emanuel Syndrome. J Radiol Case Rep. 2019;13(10):1-5. 

2. Derivatkromosom 22-syndromet [Internet]. Socialstyrelsen. 2023 [acesso 2024 mar 8]. Available from: https://www.socialstyrelsen.se/kunskapsstod-och- regler/omraden/sallsynta-halsotillstand/derivatkromosom-22-syndromet/

3. Saxena D, Srivastava P, Tuteja M, Mandal K, Phadke SR. Phenotypic characterization of derivative 22 syndrome: case series and review. J Genet. 2018;97(1):205-11. 

4. Rosa RFM, Pfeil JN, Zen PRG, Rosa RCM, Graziadio C, Paskulin GA. Variabilidade fenotípica na síndrome do cromossomo supernumerário der(22)t(11;22) (síndrome de Emanuel). Rev Paul Pediatr. 2010;28(3):367-71.

5. Carter MT, St Pierre SA, Zackai EH, Emanuel BS, Boycott KM. Phenotypic delineation of Emanuel syndrome (supernumerary derivative 22 syndrome): Clinical features of 63 individuals. Am J Med Genet A. 2009;149A(8):1712-21.










1. Faculdade Pernambucana de Saúde, Medicina - Recife - Pernambuco - Brasil
2. Centro Universitário Maurício de Nassau, Medicina - Recife - Pernambuco - Brasil
3. Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, Departamento de Pediatria - Recife - Brasil - Brasil

Endereço para correspondência:

João Batista Siqueira de Albuquerque Neto
Faculdade Pernambucana de Saúde.
Av. Mal. Mascarenhas de Morais, 4861, Imbiribeira
Recife, PE, Brasil. CEP: 51150-000.
E-mail: jnetoalbuquerque@hotmail.com

Data de Submissão: 08/03/2024
Data de Aprovação: 26/04/2024

Recebido em: 08/03/2024

Aceito em: 26/04/2024

Sobre os autores

1 Faculdade Pernambucana de Saúde, Medicina - Recife - Pernambuco - Brasil.

2 Centro Universitário Maurício de Nassau, Medicina - Recife - Pernambuco - Brasil.

3 Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, Departamento de Pediatria - Recife - Brasil - Brasil.

Endereço para correspondência:

João Batista Siqueira de Albuquerque Neto

Faculdade Pernambucana de Saúde Av. Mal. Mascarenhas de Morais, 4861, Imbiribeira Recife, PE, Brasil. CEP: 51150-000

E-mail: jnetoalbuquerque@hotmail.com

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Como citar este artigo:

Neto, JBSA, Filho, MJDP, Melo, AAO, Araújo, CFL, Leal, GF. Síndrome de Emanuel em lactente: relato de caso. Resid Pediatr. 15(2):1-3. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n2-1262

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