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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Síndrome de Klinefelter: um diagnóstico na adolescência - relato de caso

Klinefelter Syndrome: a diagnosis in adolescence - case report

Yuki Horigome1; Mirella dos Santos Monteiro1; Mariana Telles de Castro1

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1166 Residência Pediátrica, 15(3), 1-4

RESUMO

A síndrome de Klinefelter (SK) foi descrita em 1940 e se caracteriza por uma anomalia cromossômica que afeta o sexo masculino, com prevalência estimada de 1 a cada 600 nascidos vivos. É uma desordem genética comum, porém subdiagnosticada devido à sua grande variabilidade fenotípica na infância. Seu diagnóstico é feito clinicamente e confirmado com avaliação cromossômica. Os principais achados clínicos são testículos pequenos, ginecomastia, azoospermia e aumento das gonadotrofinas, caracterizando hipogonadismo. O tratamento consiste na reposição hormonal e acompanhamento multidisciplinar, sendo importante o diagnóstico e tratamento precoces, preferencialmente na fase da puberdade, contribuindo para melhor qualidade de vida dos portadores desta síndrome. Trata-se de um relato de caso realizado em unidade de atendimento infantil em um município do interior de São Paulo. O estudo respeita os princípios da resolução nº 510/2016, da Comissão Nacional de Saúde. Refere-se ao caso de um adolescente de 16 anos de idade com quadro de ginecomastia unilateral, testículos impúberes e dificuldade em dialogar sobre sua sexualidade. A presença de sinais e sintomas de deficiência androgênica aliados ao cariótipo 47, XXY levaram ao diagnóstico de síndrome de Klinefelter. Este estudo tem como objetivo alertar sobre os sinais e sintomas mais comuns, bem como estimular a realização de exames complementares que auxiliam na elucidação diagnóstica da síndrome de Klinefelter.

Palavras-chave: Síndrome de Klinefelter, Transtornos dos cromossomos sexuais, Transtornos do cromossomo sexual no desenvolvimento sexual, Ginecomastia.

Abstract

Klinefelter syndrome (KS) has been described in 1940 and is characterized by a chromosomal anomaly that affects males with an estimated prevalence of 1 in every 600 live births. It is a common genetic disorder, however, misdiagnosed due to high phenotypic variability in childhood. The diagnosis is made clinically and confirmed with chromosomal evaluation. The main clinical findings are small testicles, gynecomastia, azoospermia and increased gonadotropins wich characterizes hypogonadism. Treatment consists of hormone replacement therapy and multidisciplinary monitoring, early diagnosis and treatment are important, ideally during puberty, contributing to an improved quality of life for patients with this syndrome. It is a case report conducted at a child care unit in a inner city of São Paulo. The study respects the principles of resolution No. 510/2016, of the National Health Commission. It refers to a 16-year-old teenager with unilateral gynecomastia,pubescent testicles and difficulty in talking about his sexuality. The presence of signs and symptoms of androgen deficiency combined with karyotype 47, XXY led to the diagnosis of Klinefelter Syndrome. This study aims to warn about the most common signs and symptoms of the individuals with Klinefelter syndrome and also tests to elucidate diagnosis.

Keywords: Klinefelter syndrome, Sex chromosome disorders, Sex Chromosome disorders of sex development, Gynecomastia.

INTRODUÇÃO

A síndrome de Klinefelter (SK) foi descrita em 1940 e é caracterizada por anomalia cromossômica que afeta o sexo masculino, com prevalência estimada de 1 a cada 600 nascidos vivos. Essa desordem cromossômica ocorre pela não disjunção genética na meiose ou mitose durante a gametogênese ou por meio da não disjunção pós-zigótica durante o período embrionário inicial, levando à aneuploidia do cromossomo sexual, apresentando como característica citogenética, em sua grande maioria (90%), um cromossomo X extra (47, XXY); e em sua minoria (10%), moisacismo (46 XY/47XXY), outras aneuploidias raras e mais graves (48 XXXY/ 49 XXXXY) e estruturas cromossômicas anormais1-4. Essa alteração cromossômica pode estar associada ao avanço da idade materna ou paterna5.

Os sinais e sintomas comuns dessa síndrome são consequências da expressão dos genes extras do cromossomo X que podem interromper muitos aspectos do desenvolvimento, como o desenvolvimento sexual antes do nascimento e na puberdade e alterações em estruturas cerebrais6.

Essa síndrome está associada à disfunção testicular cursando frequentemente com hipogonadismo e/ou infertilidade por consequência de uma falência androgênica. Os achados clínicos principais são volume testicular reduzido (máximo de 10 ml), azoospermia e aumento das gonadotrofinas. Pode cursar também com ginecomastia, atraso puberal, pilificação diminuída, micropênis, alta estatura, aumento da envergadura em relação à estatura, dificuldade de aprendizagem e fala, obesidade, doenças psiquiátricas associadas à imagem, síndrome metabólica, doenças autoimunes e câncer1-3.

Na presença de hipogonadismo associado a baixos níveis de testosterona, a terapia de reposição hormonal continua sendo o tratamento médico de escolha e sua dose é individualizada. Esse tratamento não traz mudanças dos padrões corporais já estabelecidos e déficits de desenvolvimento neurológico, mas apresenta melhora no bem-estar, atenção e humor4,5.

Apesar de bem estabelecidas as características fenotípicas da síndrome, é estimado que apenas 25% a 35% dos indivíduos do sexo masculino portadores de SK são diagnosticados ao longo da vida devido à variabilidade na apresentação clínica. Visto o baixo percentual de diagnóstico na infância e adolescência, o trabalho objetiva alertar a importância da investigação das alterações testiculares associadas ou não a outros sinais de hipogonadismo para diagnóstico e tratamento antes da fase adulta.

O estudo realizado é de caráter descritivo, realizado em unidade de atendimento infantil em um município no interior de São Paulo; o estudo respeita os princípios da resolução nº 510/2016, da Comissão Nacional de Saúde e foi aprovado pela comissão de ética e pesquisa da Universidade de Taubaté sob o número CAAE: 37218120.0.0000.5501.


RELATO DE CASO

JPAL, 16 anos, masculino, solteiro, estudante, acompanhado pela tia, foi encaminhado à consulta de Hebiatria para acompanhamento e orientações sobre sexualidade.

Paciente referia ginecomastia unilateral à esquerda há 2 anos e testículos pequenos, essa última informação não havia sido relatada à responsável. Adolescente cuidado pela tia, possuía história pregressa de pneumonia aos 7 anos e litíase renal aos 14 anos, sem alergias ou cirurgias prévias. Jovem já em programação de correção cirúrgica de ginecomastia.

Indivíduo tímido, porém com boa interação social, comportamento alimentar e hábitos de vida compatíveis com período da adolescência, negava uso de medicações e/ou drogas lícitas e ilícitas, sem histórico familiar de doenças genéticas e/ou cardiovasculares.

Ao exame físico, apresentava biotipo eunucoide (longilíneo com predomínio do segmento inferior), com estatura de 177 cm (z- score entre 0 e +1), envergadura de 180,5 cm, peso de 67,5 kg, IMC 21,54 kg/m2 (z- score entre 0 e +1). O aparelho genitourinário com distribuição dos pêlos em padrão masculino, testículos impúberes, critério para maturação sexual Marshall & Tanner G1 P4, com evidência de ginecomastia grau dois unilateral à esquerda. O exame dos demais aparelhos não apresentava alterações, exceto pela pressão arterial aferida no momento da consulta de 136 x 90 mmHg, compatível com hipertensão estágio 1.

Realizada ultrassonografia de bolsa testicular que apresentava testículos com dimensões reduzidas, ambos com volume de 1,7 cm3, texturas homogêneas, epidídimos de forma, ecogenicidade e espessuras normais, sem evidências de lesões focais sólidas e/ou císticas em testículos e epidídimos. Cordões espermáticos de aspecto normal (figura 1).





Os exames laboratoriais revelaram aumento de hormônio folículo estimulante (FSH) e hormônio luteinizante (LH), e redução de androstenediona (Tabela 1). O exame do cariótipo banda G revelou 47, XXY, confirmando a hipótese diagnóstica de Síndrome de Klinefelter.





Realizadas orientações ao adolescente em relação à sexualidade e possíveis repercussões pela síndrome apresentada, bem como encaminhamento à psicologia e endocrinologia pediátrica com novos pedidos de exames laboratoriais para avaliar a necessidade de reposição hormonal.


DISCUSSÃO DO CASO

A SK é uma desordem genética comum que cursa com insuficiência endócrina, apresentando variações nas concentrações de testosterona sérica e variabilidade fenotípica, o que faz com que seja subdiagnosticada.

Possíveis características clínicas em adolescentes com SK descritas na literatura são: testículos pequenos e sólidos, virilização diminuída, ginecomastia, gordura abdominal, disfunção sexual, problemas de imagem corporal e humor deprimido. Além desses sinais e sintomas, podem ser encontrados início tardio da puberdade, alta estatura, aumento teor de gordura5. No caso em questão, o adolescente apresentava ginecomastia, testículos pequenos e firmes, alta estatura, hipertensão e distúrbio de imagem corporal, compatíveis com a literatura.

Em artigo publicado por Hovnik et al. (2022)7, foi relatado o caso de um paciente que foi referenciado ao serviço devido à ginecomastia e, durante avaliação clínica, foram evidenciados constituição astênica, testículos pequenos e tópicos, história prévia de correção cirúrgica de hipospádia e orquipexia. Investigação laboratorial demonstrava hipogonadismo associado à queda de testosterona e cariótipo 47 XXY/ 46XX, sendo confirmado mosaicismo para SK. No presente relato de caso, o motivo do encaminhamento foi semelhante e os achados do exame físico nortearam o diagnóstico, o qual foi corroborado através do cariótipo.

Importante salientar que a ginecomastia encontrada no caso reportado apresentava evolução maior que 18 meses, sem sinais de regressão espontânea, associada à alteração em gônadas, o que descaracteriza a ginecomastia fisiológica.

A vivência da adolescência é permeada pela importante mudança na composição corporal, evolução da maturidade e identidade sexual, o que pode trazer consequências psicossociais se tais modificações não estiverem dentro da expectativa do adolescente, o que ocorreu com o paciente deste caso. Como descrito na literatura, o acompanhamento psicológico é útil para melhorar essas experiências e oferecer oportunidades para desenvolver estratégias para reconhecer, processar e expressar sentimentos e pensamentos. Meninos com SK correm maior risco de comprometimento da cognição social e percepções menos precisas de pistas socioemocionais. O conceito de prováveis distúrbios de fertilidade deve ser debatido juntamente com revisões regulares da puberdade e função sexual em adolescentes8, como foi feito neste caso. A importância do diagnóstico correto e precoce é, justamente, poder atuar na prevenção e/ou tratamento de suas consequências imediatamente, como micropênis e testículos pequenos, dificuldades de aprendizagem, puberdade tardia, infertilidade, alta estatura, esqueleto eunucoide, ginecomastia, osteoporose e outros distúrbios metabólicos, melhorando a qualidade de vida do indivíduo.


CONCLUSÃO

Neste trabalho apresentamos um caso de SK diagnosticado durante a puberdade. Apesar de ser uma desordem genética comum, ainda apresenta poucos diagnósticos antes da idade adulta e, para tanto, precisa ser identificada por pediatras e hebiatras para determinação precoce, preferencialmente na fase pré-puberal, proporcionando acompanhamento multidisciplinar e intervenções, quando necessárias, já na infância e puberdade. O reconhecimento pode ser feito por meio de triagem simples através da palpação e estimativa de volume testicular nas consultas de rotina de todos os meninos impúberes e púberes.


REFERÊNCIAS

1. Tincani BJ, Mascagni BR, Pinto RDP, Guaragna-Filho G, Castro CCTS, Sewaybricker LE, et al. Klinefelter syndrome: an unusual diagnosis in pediatric patients. J Pediatr (Rio J). 2012;88(4):323-7.

2. Bearelly P, Oates R. Recent advances in managing and understanding Klinefelter syndrome. F1000Res. 2019;8(F1000 Faculty Rev):112.

3. Davis S, Howell S, Wilson R, Tanda T, Ross J, Zeitler P, et al. Advances in the Interdisciplinary Care of ChildreN with Klinefelter Syndrome. Adv Pediatr. 2016;63(1):15-46.

4. Lizarazo AH, McLoughlin M, Vogiatzi MG. Endocrine aspects of Klinefelter syndrome. Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes. 2019;26(1):60-5.

5. Zitzmann M, Aksglaede L, Corona G, Isidori AM, Juul A, T'Sjoen G, et al. European Academy of Andrology Guidelines on Klinefelter Syndrome Endorsing Organization: European Society of Endocrinology. Andrology. 2012;9(1):145-67.

6. Curado RMOF, Sestari SJ, Gamba BF, Bicudo LAR, Approbato MS, Amaral WN, et al. Síndrome de Klinefelter, uma condição subdiagnosticada: revisão de literatura. RRS FESGO. 2020 jan.-jul.;3(1):68-75

7. Hovnik T, Zitnik E, Avbelj Stefanija M, Bertok S, Sedej K, Bancic Silva V, et al. An Adolescent Boy with Klinefelter Syndrome and 47,XXY/46,XX Mosaicism: Case Report and Review of Literature. Genes (Basel). 2022 Apr 23;13(5):744. DOI: https://doi.org.10.3390/genes13050744.

8. Butler G, Srirangalingam U, Faithfull J, Sangster P, Senniappan S, Mitchell R. Klinefelter syndrome: going beyond the diagnosis. Arch Dis Child. 2023 Mar;108(3):166-71.










Universidade de Taubaté, Residência Médica - Pediatria - Taubaté - São Paulo - Brasil

Endereço para correspondência:
Yuki Horigome
Universidade de Taubaté
Rua Quatro de Março, 432, Reitoria, Centro
Taubaté, SP, Brasil. CEP: 12020-270
E-mail: yuki_horigome@hotmail.com

Data de Submissão: 20/09/2023
Data de Aprovação: 19/03/2025

Sobre os autores

1 Universidade de Taubaté, Residência Médica - Pediatria - Taubaté - São Paulo - Brasil.

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Como citar este artigo:

Horigome, Y, Monteiro, MS, Castro, MT. Síndrome de Klinefelter: um diagnóstico na adolescência - relato de caso. Resid Pediatr. 15(3):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1166

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