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Avaliação do conhecimento da equipe médica sobre a exposição solar e icterícia neonatal em um hospital no Sul do Brasil

Assessment of Medical Team Knowledge on Sun Exposure and Neonatal Jaundice in a Hospital in Southern Brazil

Aline Didoni Fajardo1; Catarina Pfitzer2; Emanuelli Rudolf2; Flávia Maestri Nobre Albini1; Ana Alice Broering Eller2; Marco Otilio Duarte Rodrigues Wilde2; Sandra Mara Witkowski2

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1350 Residência Pediátrica, 15(3), 1-4

RESUMO

INTRODUÇÃO: A exposição solar no período neonatal para redução da icterícia é contraindicada pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que além de não ser uma forma eficaz de tratamento, pode trazer consequências mais graves como o câncer de pele e queimaduras solares.
OBJETIVO: Avaliar o conhecimento da equipe médica sobre a exposição solar no período neonatal, no que se refere à exposição solar com o intuito de diminuir a icterícia neonatal e fornecer aos participantes o conhecimento atualizado sobre o assunto.
METODOLOGIA: Estudo observacional, analítico e transversal, realizado de outubro de 2020 a agosto de 2021, baseado num questionário dirigido aos médicos das crianças nascidas em Maternidade no Sul do Brasil.
RESULTADOS: Em relação ao conhecimento médico sobre a exposição solar no período neonatal, 24 (51,1%) médicos responderam que a frequência de exposição ao sol deveria ser todos os dias, 17 (37,0%) acham que o melhor horário para o banho de sol seja antes das 10 horas e após as 16 horas, 18 (38,3%) afirmaram que o tempo de permanência aos raios solares deveria ser de 10 a 15 minutos e 21 (44,7%) profissionais acham não ter indicação para tal exposição.
CONCLUSÃO: Há um conhecimento equivocado por parte de alguns médicos sobre a exposição do RN ao sol principalmente com intuito de redução da icterícia. Portanto, é indispensável a educação continuada dos médicos.

Palavras-chave: Recém-Nascido, Fototerapia, Icterícia neonatal.

INTRODUÇÃO

A icterícia neonatal é um agravo frequente na neonatologia, acomete o recém-nascido (RN) a termo, mas sobretudo o prematuro. Níveis séricos elevados de bilirrubina total, às custas de bilirrubina indireta (BI), podem causar impregnação bilirrubínica no sistema nervoso central, levando a danos neurológicos irreversíveis como a encefalopatia bilirrubínica (Kernicterus), que além de graves sequelas como: tétrade paralisia cerebral atetoide grave e neuropatia auditiva, pode evoluir para óbito. O tratamento, na maioria das vezes, é realizado com fototerapia e raramente com exsanguineotransfusão1,2.

Na maior parte dos casos a icterícia neonatal é fisiológica, surgindo após as primeiras 24 horas de vida do RN e perdurando por aproximadamente uma semana. Ela pode ser decorrente de uma maior produção de bilirrubina, imaturidade no sistema de conjugação intra-hepática da BI e maior desconjugação da bilirrubina direta a nível intestinal por ação da betaglucuronidase, que são características fisiológicas dos primeiros dias de vida. A icterícia neonatal pode estar associada também a outras causas como o baixo peso de nascimento, amamentação tardia ou ineficaz e a causas patológicas como: infecções congênitas, hipotireoidismo congênito, deficiência de G6PD, galactosemia, tirosinemia, icterícia do leite materno, síndrome de Gilbert e Crigler-Najjar, malformações de vias biliares entre outras2-4.

Sabe-se que o Sol tem a capacidade de realizar a fotoisomerização da bilirrubina (BI), facilitando sua excreção. A faixa azul é o comprimento de onda ideal para a fotoisomerização. Embora a luz solar inclua a faixa efetiva de comprimento de onda da luz azul, ela também contém a faixa prejudicial de luz ultravioleta5. Além disso, os lactentes e RN possuem camada epidérmica mais fina e menor produção de melanina e, por isso, são mais suscetíveis aos danos da radiação ultravioleta à pele6. Diante da possibilidade de diminuir a icterícia neonatal através da exposição solar, quando o neonato apresenta icterícia sem necessidade de fototerapia e está apto para alta, surge a dúvida materna sobre expor ou não o bebê ao sol, prática culturalmente comum para reduzir a icterícia7-10. A exposição à radiação ultravioleta (UV) em excesso na infância pode gerar riscos como o câncer de pele e o envelhecimento precoce11,12. A SBP não recomenda a exposição solar direta do recém-nascido para tratar hiperbilirrubinemia, pois não é eficaz e pode causar danos à pele, tanto a curto quanto a longo prazo13.

Há uma cultura de exposição do bebê ao sol por parte de alguns médicos, como forma de prevenção e tratamento para a icterícia, principalmente para os RN que apresentam a icterícia visível na alta hospitalar, contudo sem nível sérico necessário para tratamento fototerápico. O objetivo desta pesquisa é avaliar o conhecimento da equipe médica sobre a exposição solar no período neonatal com o intuito de tratar ou prevenir a icterícia, observando também o conhecimento sobre a exposição solar nesse período da vida. Ademais, tem como objetivo fornecer aos participantes o conhecimento atualizado sobre o assunto.


METODOLOGIA

Estudo observacional, analítico e transversal. Realizado no período de outubro de 2020 a agosto de 2021, aprovado sob o número do parecer 37202220.00000.0120 no dia 09/12/2020 pelo Comitê de Ética em Pesquisa. O estudo foi realizado em uma maternidade no Sul do país, referência para a região de Itajaí/SC, Brasil. Os resultados foram obtidos com base em um questionário digital dirigido aos médicos e enviado para quatro equipes de maternidades da Região Sul do país. Posterior ao preenchimento do questionário foi entregue aos médicos um folder contendo informações sobre a correta exposição solar no período neonatal bem como orientações sobre os riscos da icterícia. Os resultados de variáveis quantitativas foram descritos por média, desvio-padrão, mediana, mínimo e máximo. Para variáveis categóricas foram apresentados frequência e percentual. A análise de associação entre duas variáveis categóricas foi feita utilizando o teste de Qui-quadrado. Valores de p<0,05 indicaram significância estatística. Os dados foram analisados com o programa computacional Stata/SE v.14.1. StataCorp LP, USA.RESULTADOS

Foram entrevistados ao todo 49 médicos de ambos os sexos, sendo 44 (89,8%) do sexo feminino e 5 (10,2%) do sexo masculino com idade média 42,9 anos (DP± 9,2), sendo que as idades variavam de 27 a 63 anos de idade. Já em relação ao tempo de formação em medicina, a média foi de 17,5 anos (DP±8,9) anos, e a média de experiência em maternidade foi de 12,8 anos (DP±10,3). Dos entrevistados, 46 (93,8%) atendem RN atualmente e 3 (6,1%) responderam que não.

Os 49 profissionais entrevistados possuíam residência médica, concluída entre os anos de 1980 e 2021. Em relação ao conhecimento médico sobre os riscos da exposição solar: 48 (98,0%) dos médicos acham que os riscos são queimaduras solares, 46 (93,9%) acreditam que os riscos são desenvolvimento de câncer de pele, 43 (87,8%) envelhecimento precoce, 31 (59,2%) eritema dérmico e 1 (2,0%) respondeu doenças metabólicas e genéticas como risco.

Em relação aos benefícios envolvidos na exposição solar, foram indagados 47 médicos: 100% acreditam ser importante para síntese de vitamina D, 41 (87,2%) acham que é responsável pela geração de bem-estar, 28 (59,6%) acreditam que favorece a diminuição da bilirrubinemia, 23 (48,9%) relataram ser responsável pela produção de β-endorfinas, 21 (44,7%) acham importante para atividade serotoninérgica cerebral, 14 (28,8%) acreditam ser responsável pelo fortalecimento dérmico. No que diz respeito às indicações da exposição solar no período neonatal: 24 (51,1%) acreditam ser responsável pela prevenção da hipovitaminose D, 17 (36,2%) afirmaram ser indicado para tratamento da icterícia neonatal e 13 (27,7%) acham que não tem indicação de expor o RN no período neonatal. Para os que indicam a exposição solar, foi questionado quanto tempo de exposição deve ser orientado no período neonatal: 22 (29,3%) acreditam ser necessária a exposição solar todos os dias, 23 (56,1%) acham importante o melhor horário antes das 10 horas e após as 16 horas. A orientação quanto ao tempo de permanência do banho de sol: 22 (47,8%) indicaram ser em média de 10 a 15 min, e 12 (26,1%) acham que deve permanecer o RN ao sol por pelo menos 10 minutos.

Ao analisar o RN com icterícia sem indicação de fototerapia, qual seria a orientação de alta em relação aos hábitos de exposição solar: 24 (51,1%) médicos responderam que a frequência de exposição ao sol deveria ser todos os dias, 17 (37,0%) acham que o melhor horário para o banho de sol seja antes das 10 horas e após as 16 horas, 18 (38,3%) afirmaram que o tempo de permanência aos raios solares deveria ser de 10 a 15 minutos e 21 (44,7%) profissionais acham não ter indicação para tal exposição.


DISCUSSÃO

A avaliação do conhecimento da equipe médica sobre exposição solar para reduzir a icterícia neonatal é relevante, já que a icterícia é comum na neonatologia e a exposição solar excessiva na infância traz riscos como câncer de pele, envelhecimento precoce e queimaduras solares11,12. Segundo manuais de fotoproteção da SBP, não se deve expor o neonato ao sol com intuito de prevenir ou tratar a icterícia neonatal13, pois os malefícios, principalmente a longo prazo, como os cânceres de pele, sobrepõem-se aos benefícios11,12. Estudos revelam que a radiação solar, por exemplo, é capaz de gerar mutações no DNA e, apesar de o organismo apresentar mecanismos de reparos para tal dano, em patologias como o xeroderma pigmentoso, essa reparação é defeituosa e insuficiente14,15.

Estima-se que dois terços dos casos de melanoma resultam de exposição solar excessiva nos primeiros 15 anos de vida16, destacando a importância de proteger as crianças do sol para prevenir o câncer de pele17-19. Apesar dos riscos causados pela exposição ao sol, tem-se também diversos benefícios como: a síntese de vitamina D produzida pelo organismo humano, geração de bem-estar, produção de β-endorfinas, atividade serotoninérgica cerebral, degradação do ácido fólico, imunomodulação e controle do relógio circadiano. No entanto, essa exposição deve seguir as orientações de especialistas20. A obtenção de vitamina D através da exposição solar também não é indicada no período neonatal, pelos mesmos motivos13.

A orientação da exposição solar no RN ictérico mostrou-se uma prática frequente entre alguns médicos, mesmo sabendo dos riscos à pele do bebê revelados no início do questionário. Provavelmente isso se deve a um hábito cultural defasado, que deve ser mudado através de educação médica continuada. E não se atém à região estudada, e sim à federação, pois uma pesquisa realizada em Montes Claros/MG, sobre desenvolvimento e validação de instrumento para avaliar o conhecimento de médicos generalistas e pediatras sobre fotoproteção e radiação solar, revelou que 90% dos médicos tinham conhecimento da relação da exposição solar em excesso com o câncer de pele, além da relevância da prevenção primária nos esforços de combate ao melanoma21.

A amostra estudada tem experiência profissional no atendimento ao RN e demonstra o crescimento da população médica do sexo feminino em comparação com o sexo masculino na área de pediatria. De acordo com dados da SBP em 2018, estima-se que as mulheres já respondiam por cerca de 73,9% da especialidade no país, enquanto os homens eram 26,1%22.

Em relação ao conhecimento médico sobre os riscos de se expor o neonato ao sol: 48 (98,0%) responderam queimaduras solares como principal risco, seguidos de câncer de pele 46 (93,9%) e envelhecimento precoce com 43 (87,8%), mostrando um conhecimento sobre o assunto, principalmente no que se refere à doença dérmica neoplásica a longo prazo.

Sobre os benefícios da exposição solar, a obtenção da vitamina D foi unânime, e 24 (51,1%) dos médicos relataram que uma das indicações de expor o RN ao sol seria para prevenir a hipovitaminose D. Sabe-se que realmente o sol é fonte de vitamina D, porém a forma correta de prevenção da hipovitaminose D no período neonatal é através da administração oral da vitamina, devido aos riscos da exposição serem maiores que o benefício23,24.

Os pediatras são profissionais com grande poder educador para a população e a fotoproteção é um tema que deve ser abordado nas consultas de puericultura. O estudo desenvolvido pode ter apresentado algumas limitações como o número reduzido de médicos entrevistados, a população estudada ser predominantemente litorânea podendo afetar hábitos e costumes. Foi possível comparar com dados encontrados em outros locais do Brasil, porém escassos, sendo essencial realizar mais estudos em outras regiões do nosso país a fim de comparar os dados de outras populações.

Foi possível observar algumas lacunas nos conhecimentos de alguns médicos acerca dos conhecimentos relacionados ao banho de sol e da icterícia, acreditando-se que expondo o RN ao sol poderia reduzir tal problema, demonstrando um desconhecimento sobre o assunto. A fototerapia é o único tratamento padrão atual e eficiente para icterícia neonatal. Além disso, a exposição solar é contraindicada devido aos efeitos deletérios do sol cumulativos que no longo prazo podem levar ao câncer de pele. Em vista disso, faz-se necessário informar como também esclarecer os médicos, assim como toda a população em geral, dos efeitos nocivos da exposição solar no período neonatal.


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1. Hospital Infantil Pequeno Anjo, Residência de Pediatria - Itajaí - Santa Catarina - Brasil
2. Universidade do Vale do Itajaí, Departamento de Pediatria - Itajaí - Santa Catarina - Brasil

Endereço para correspondência:

Sandra Mara Witkowski
Universidade do Vale do Itajaí, Departamento de Pediatria,
Itajaí, Santa Catarina, Brasil. Rua Uruguai, 458, Centro
Itajaí, SC, Brasil. CEP: 88302-901.
E-mail: sandrawtk@gmail.com

Data de Submissão: 03/10/2024
Data de Aprovação: 28/11/2024

Recebido em: 03/10/2024

Aceito em: 28/11/2024

Sobre os autores

1 Hospital Infantil Pequeno Anjo, Residência de Pediatria - Itajaí - Santa Catarina - Brasil.

2 Universidade do Vale do Itajaí, Departamento de Pediatria - Itajaí - Santa Catarina - Brasil.

Endereço para correspondência:

Sandra Mara Witkowski

Universidade do Vale do Itajaí, Departamento de Pediatria Itajaí, Santa Catarina, Brasil. Rua Uruguai, 458, Centro Itajaí, SC, Brasil. CEP: 88302-901

E-mail: sandrawtk@gmail.com

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Como citar este artigo:

Fajardo, AD, Pfitzer, C, Rudolf, E, Albini, FMN, Eller, AAB, Wilde, MODR, Witkowski, SM. Avaliação do conhecimento da equipe médica sobre a exposição solar e icterícia neonatal em um hospital no Sul do Brasil. Resid Pediatr. 15(3):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1350

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