A disceratose congênita é uma doença grave, rara, com poucos relatos na literatura - sendo estimado 1/1000000 na Europa - e que pode levar a falência medular. Inicialmente, pode-se suspeitar do diagnóstico através das alterações clássicas mucocutâneas, como distrofia ungueal, pigmentação reticular da face, do pescoço e dos ombros e leucodisplasia das mucosas. O diagnóstico definitivo se faz pela determinação de telômeros e o tratamento é paliativo até que se consiga o transplante de medula óssea.
OBJETIVO
Relatar o caso de um indivíduo portador de disceratose congênita que evoluiu para aplasia de medula, necessitando, frequentemente, de hemotransfusões e aumento no número de internações devido às infecções.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo do tipo Relato de Caso. As informações contidas neste trabalho foram obtidas por meio de revisão do prontuário, entrevista com a responsável pelo paciente e revisão da literatura.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo masculino, 5 anos de idade, natural de Uberaba/MG, iniciou seguimento no ambulatório da Hematologia e Hemoterapia Pediátrica em fevereiro de 2013 devido à plaquetopenia leve (125.000/mm³), evidenciada em exames de rotina. Devido à persistência da plaquetopenia, foi realizado mielograma com normoplasia de séries eritrocítica, granulocítica e linfoplasmocítica, com hipoplasia de série megacariocítica. Como o paciente estava assintomático, optou-se por seguimento regular com reavaliação clínica e laboratorial.
Nas consultas posteriores, a plaquetopenia foi evoluindo para uma pancitopenia. Em 16 de janeiro de 2014, foi coletado teste de sensibilidade ao diepoxibutano, com resultado negativo, e biópsia de medula óssea, que revelava medula óssea hipocelular com 15% de tecido hematopoiético e 85% de tecido adiposo, com raros granulócitos e amplo predomínio de linhagem linfocítica, hemossiderina presente grau 2 em 4; conclusão sugestiva de anemia aplástica.
Em 2014, paciente iniciou transfusão de concentrado de hemácias e plaquetas mensalmente. No exame físico, notou-se distrofias ungueais (Figuras 1 e 2) e pigmentação reticular da pele. Em 2016, foi realizada a medida do comprimento telomérico; o resultado desse exame foi muito curto para a idade, fechando o diagnóstico de disceratose congênita.
Figura 1. Distrofias ungueais em mão esquerda.
Figura 2. Distrofias ungueais em pé esquerdo.Ao longo dos três anos de acompanhamento médico, o paciente intensificou a pancitopenia. A Dermatologia indicou reparadores de barreira de pele para a disqueratose (sem sucesso no tratamento) e a Oftalmologia diagnosticou uma retinite fúngica. Atualmente, ele realiza transfusão de plaquetas duas vezes na semana e de concentrado de hemácias de 15 em 15 dias. Devido à neutropenia persistente grave (neutrófilos menores que 500), aumentou o número de internações tratáveis com antibiótico de largo espectro.
DISCUSSÃO
A disceratose congênita é uma doença rara com instabilidade cromossômica. A manifestação clássica é a tríade pigmentação reticulada da pele, distrofia ungueal e leucoplasia em mucosas1. Apesar da tríade clássica caracterizar a doença, apenas três quartos possuem pelo menos uma característica clínica e pouco menos da metade as três. Outras alterações, além das mucocutâneas, podem ser apresentadas, como: falência progressiva da medula óssea, aumento das chances de desenvolver mielodisplasia e leucemias, alterações hepáticas, fibrose pulmonar e calcificações do sistema nervoso central2.
Há dois tipos graves de disceratose congênita: (1) síndrome de Hoyeraal-Hreidarsson, caracterizada por hipoplasia cerebelar, microcefalia, ataxia, atraso no desenvolvimento, imunodeficiência e anemia aplástica precoce; e, (2) síndrome de Revezs, que apresenta quadro de retinopatia exsudativa bilateral, retardo intrauterino, anemia aplástica grave e calcificações no sistema nervoso central. Os prognósticos dessas duas formas são muito sombrios.
A disceratose congênita é uma desordem que pode ser herdada de forma autossômica recessiva, autossômica dominante ou ligada ao cromossomo3.Cerca de 70% dos doentes terão uma mutação em um dos seguintes genes: ACD, CTC1, DKC1 - DC, NAF1, NHP2, NOP10, PARN, RTEL1, STN1, TERC, TERT, TINF2, WRAP534.
O diagnóstico é realizado pela determinação dos tamanhos dos telômeros (menor que 1% para a idade) em vários subtipos de leucócitos e os achados clínicos da doença5. O tratamento consiste em atenuar os sintomas com hemotransfusões, danazol e tratamento de infecções6. Já o tratamento definitivo se dá com o transplante de medula óssea. Mesmo após o transplante, existe chance de complicações, como fibrose pulmonar ou hepática.
CONCLUSÃO
A disceratose congênita é uma doença grave, com aumento de chances de sobrevida quando diagnosticada precocemente. O tratamento consiste em atenuar os sintomas e a cura definitiva é obtida através do transplante de medula óssea.
REFERÊNCIAS
1. Carvalho SP, Pereira LB, Silva CMR, Vale ES, Gontijo B. Disceratose congênita - Relato de caso e revisão da literatura. An Bras Dermatol (Rio de Janeiro). 2003;78(5):579-86. [acesso 2017 Maio 1]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/abd/v78n5/17557.pdf
2. Lorenzi TF, D’Amico E, Daniel MM, Silveira PAA, Buccheri V. Manual de Hematologia - Propedêutica e Clínica. 3ª ed. São Paulo: Medsi; 2003.
3. Braga JAP, Tone LG, Loggetto SR. Hematologia para o Pediatra. São Paulo: Atheneu; 2007.
4. Zago MA, Falcão RP, Pasquini R. Tratado de Hematologia. São Paulo: Atheneu; 2013.
5. Olson T. Dyskeratosis congenita and other short telomere syndromes. Uptodate. [acesso 2017 Maio 1]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/dyskeratosis-congenita-and-other-short-telomere-syndromes?source=search_result&umpsearch=Dyskeratosis%20congenita&umpselectedTitle=1~150
6. Townsley DM, Dumitriu B, Liu D, Biancotto A, Weinstein B, Chen C, et al. Danazol Treatment for Telomere Diseases. N Engl J Med. 2016;374:1922-31. [acesso 2017 Maio 1]. Disponível em: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1515319#t=article
1. Pediatra - Residente na área de Hematologia e Hemoterapia Pediátrica no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil
2. Médica na área de Hematologia e Hemoterapia Pediátrica no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil
Endereço para correspondência:
Vinícius de Mendonça Magalhães
Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro
Rua Frei Paulino, nº 30,Bairro Nossa Senhora da Abadia
Uberaba - MG. Brasil. CEP: 38025-250
E-mail: vinimms@yahoo.com.br
Data de Submissão: 15/01/2018
Data de Aprovação: 15/05/2018
Recebido em: 15/01/2018
Aceito em: 15/05/2018