O SARS-CoV-2, uma doença até então desconhecida, causada pelo coronavírus e que deflagra insuficiência respiratória aguda e outros comprometimentos sistêmicos foi primariamente descrita em dezembro de 2019, na China1. Em poucos meses, no entanto, devido ao alto nível de transmissibilidade e disseminação, seria a causa de uma nova pandemia2.
Diante desse grave problema de saúde pública de cunho internacional, todos os países devem tomar medidas que contenham a propagação do vírus. Entre elas, a disponibilidade de testes, esforços hospitalares, isolamento de casos suspeitos, além de medidas mais abrangentes de distanciamento social3.
Crianças de todas as idades são suscetíveis à COVID-19 e não houve diferença significativa entre os sexos4. As crianças não costumam ser a população alvo dessa pandemia, mas apresentam o risco de estar entre as principais vítimas. Embora tenham sido amplamente poupados dos efeitos diretos à saúde da COVID-19 - pelo menos até o momento - a crise está afetando profundamente o bem-estar deles5.
É nesse contexto de controle da mobilidade de pessoas e da escassez de recursos hospitalares, realocados para atender as necessidades dos infectados com a COVID-19 em condições críticas; que pacientes com comorbidades tiveram um grande impacto na avaliação e no tratamento das suas doenças de base. Além disso, a ansiedade e o medo dos pacientes em relação ao novo vírus são fatores contribuintes para o atraso no diagnóstico6.
Desse modo, o presente trabalho tem o intuito e objetivo em contribuir para o entendimento das novas consequências que uma pandemia pode promover no diagnóstico, condução e tratamento de doenças, que em situações habituais são identificadas conduzidas e tratadas de modo distinto. Busca ainda inferir que a apreensão e aflição causada pela possibilidade de infecção pelo SARS-CoV-2 pode tanto auxiliar ou retardar no diagnóstico de doenças graves.
RELATO DE CASO
Trata-se de paciente de 12 anos, do sexo feminino, previamente hígida, que iniciou em abril deste ano com a presença de discretos hematomas difusos sem outros sintomas associados. Por volta de 10 dias após a presença dos hematomas a paciente evoluiu com dor em região coxofemoral distal à esquerda, com piora à compressão e dificuldade ao deambular. No dia 20 de maio, por volta de 30 dias do início do quadro inicial, apresentou coriza e obstrução nasal associada à cacosmia.
A paciente tardou aproximadamente 1 mês em buscar auxílio médico devido ao receio de contaminação pelo SARS-CoV-2 frente à atual pandemia vivenciada. Curiosamente, quando buscou o serviço de saúde, a motivação se deu devido à apreensão em estar infectada com o novo coronavírus, já que sua mãe, profissional de saúde, tinha suspeita de infecção por SARS-CoV-2.
Desse modo, no dia 20 de maio deu entrada em Hospital Secundário situado no Município de São Paulo, onde foram realizados exames laboratoriais, os quais evidenciaram leucopenia e plaquetopenia e então optou-se por internação com coleta de PCR para COVID-19, o qual resultou em positivo.
A paciente permaneceu internada no hospital de entrada do dia 21/05 até o dia 28/05. No dia 23 de maio iniciou com febre persistente. Durante a internação evoluiu com leucocitose progressiva com atipia linfocitária e persistência da plaquetopenia. Clinicamente a paciente persistiu com hematomas, febre diária e dor em membro inferior esquerdo. Inicialmente, suspeitou-se que o quadro poderia tratar-se de púrpura trombocitopênica idiopática, entretanto, com a evolução do caso e comprometimento de distintas linhagens hematológicas suspeitou-se de doença oncológica.
Diante da evolução apresentada, no dia 28/05 foi transferida para O hospital de especialidades para avaliação hemato-oncológica. Nesta ocasião, recebeu o diagnóstico de leucemia mielóide aguda pela análise de sangue periférico. Após diagnóstico, foram iniciados os tratamentos quimioterápicos e de suporte para estabilização clínica da paciente. Foi iniciado tretinoína (ATRA) 25mg/m2/dia e realizou-se transfusão de plaquetas e crioprecipitado. No dia 30/05 recebeu resultado de imunofenotipagem com confirmação diagnóstica de LMA subtipo M3 e posterior transferência para leito de UTI pediátrica devido ao risco de sangramento pela patologia de base. No mesmo dia foi iniciada a quimioterapia com idarubicina. A paciente obteve estabilização clínica, controle da doença e mantém-se em acompanhamento com equipe da hematologia e oncologia do hospital de especialidades em questão.
Comentários
Diante do conhecimento científico que temos ao nosso alcance, podemos inferir que a presença da infecção pelo SARS-CoV-2 pode ser um fator de imunossupressão, principalmente nas LLA e linfomas. Por outro lado, o tratamento com quimioterapia interfere na capacidade de resposta imunológica dos pacientes, e a infecção é a complicação mais frequentemente associada ao câncer e ao seu tratamento, sendo a principal causa de óbito que não a própria neoplasia7.
Segundo Lu et al. (2020)8, das 1.391 crianças avaliadas e testadas de 28 de janeiro a 26 de fevereiro de 2020, em um total de 171 (12,3%) foi confirmado como tendo infecção por SARS-CoV-2. Dentre essas, 1 delas apresentava leucemia, a qual já se encontrava em tratamento quimioterápico. Afirma-se ainda que, em contraste com os adultos infectados, a maioria das crianças infectadas parece ter um curso clínico mais leve8.
Frente ao relato de caso exposto pôde-se analisar, que diante da pandemia atual por SARS-CoV-2, muitas doenças podem surgir concomitante ao quadro infeccioso viral. Por outro lado, não podemos deixar de ponderar que frente às mudanças epidemiológicas e comportamentais atuais, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico de doenças previamente existentes, como os cânceres, que oportunamente coexistem com a infecção pelo SARS-CoV-2, podem ser postergados, pelo receio de exposição ao vírus e pela dificuldade de acesso ao sistema de saúde.
REFERÊNCIAS
1. World Health Organization (WHO). Report of the WHO-China joint mission on coronavirus disease 2019 (COVID-19). Geneva: WHO; 2020.
2. World Health Organization (WHO). WHO Director-General’s opening remarks at the mission briefing on COVID-19. Geneva: WHO; 2020.
3. Walker P, Whittaker C, Watson O, Baguelin M, Ainslie KEC, Bhatia S, et al. The global impact of COVID-19 and strategies for mitigation and suppression. Science. 2020 Mar;369(6502):413-22. DOI: https://doi.org/10.1126/science.abc0035
4. Dong Y, Mo X, Hu Y, Qi X, Jiang F, Jiang Z, et al. Epidemiological characteristics of 2143 pediatric patients with 2019 coronavirus disease in China. Pediatrics. 2020 Mar 22; [Epub preprint]. DOI: https://doi.org/10.1542/peds.2020-0702
5. United Nations Children’s Fundation (UNICEF). Policy brief: the impact of COVID-19 on children. New York: UNICEF; 2020.
6. Schmidt B, Crepaldi MA, Bolze SDA, Neiva-Silva L, Demenech LM. Saúde mental e intervenções psicológicas diante da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Estud Psicol (Campinas). 2020;37:e200063.
7. Benites EC, Cabrini DP, Silva ACB, Silva JC, Catalan DT, Berezin EN, et al. Infecções respiratórias virais agudas em pacientes pediátricos com câncer em tratamento quimioterápico. J Pediatr (Rio J). 2014 Jul/Ago;90(4):370-6.
8. Lu X, Zhang L, Du H, Zhang J, Li YY, Qu J, et al. SARS-CoV-2 infection in children. N Engl J Med. 2020 Mar;382(17):1663-5.
1. Hospital Sírio Libanês, Pediatria - São Paulo - SP - Brasil
2. Hospital Geral do Grajaú, Pediatria - São Paulo - SP - Brasil
Endereço para correspondência:
Leonardo Marques Moura Ribeiro
Hospital Sírio-Libanês
Rua Dona Adma Jafet, nº 91, Bela Vista
São Paulo - SP. Brasil. CEP: 01308-050
E-mail: leonardomouraribeiro@gmail.com
Data de Submissão: 13/08/2020
Data de Aprovação: 27/12/2020
Recebido em: 13/08/2020
Aceito em: 27/12/2020